Terça-feira, Junho 09, 2009

O Coração das Trevas - Joseph Conrad



A narrativa tensa e cheia de nuances do polonês Jozef Teodór Konrad Korzeniowski, vêm a mais de um século causando discussões infindáveis sobre os embates antagônicos de luz e trevas, civilização e selvageria, razão e loucura; mas quando revisitada atualmente apresenta traços de isquemia literária.

“O Coração das Trevas” publicado originalmente em 1902, é considerado uma das maiores alegorias sobre a imersão sem retorno a uma viagem de autoconhecimento. Utilizando como pano de fundo a África negra, sendo tomada de assalto pela colonização inglesa, o autor que adotou a simplificação do nome Joseph Conrad, se utiliza de recursos literários quase sórdidos para gerar no leitor uma agonia crescente. A tensão aumenta através da narrativa lenta e detalhada das costas africanas, dos barcos a vapor, das nuvens de mosquito, dos negros longelíneos, dos europeus deslocados e claramente incomodados pelo ambiente.

A figura que assombra todo o livro é talvez uma das personagens mais complexas e herméticas que a literatura inglesa concebeu. O fascinante Kurtz.

Um homem da renascença por assim dizer, possível jornalista, músico, político, poeta e orador capaz de convencer multidões sobre um ponto de vista.
Negociante; branco e europeu, Kurtz, é aquele responsável pelo posto mais avançado dentro das “trevas” da selva, um milagre capaz de liderar os nativos e obter mais marfim que todos - mas que aos poucos se perde nas entranhas obscuras da selva e de si mesmo.

A história toda é narrada por Marlow, um aventureiro a serviço das companhias européias que recebe a missão de resgatar o homem Kurtz, de valor inestimável por causa de sua capacidade e intelecto, e que aos poucos está se tornando uma lenda.

Durante quase toda a narrativa conhecemos Kurtz através de relatos de terceiros, e quando percebemos estamos tão ansiosos e fascinados como o protagonista Marlow para encontrar aquele homem que teria atingido o limite da lucidez em meio a selva africana.

Certamente o capricho literário e a soberba da história são atemporais, assim como os principais dilemas emocionais propostos por Conrad, mas não pude deixar de notar que a força esmagadora dos relatos descritivos da África Negra, parecem ter perdido um pouco de sua razão de ser. Acredito que na época em que foi lançado o livro se apresentou ao seu leitor como uma amálgama muito mais rica, onde a colonização não era apenas um pano de fundo, mas também uma realidade, o livro não era histórico, mas uma denúncia poderosa e atual. Além dos embates crescentes entre civilização e selvageria, entre sanidade e loucura a realidade que saltava aos olhos era urgente e poderia ser conferida pelo leitor que se aventurasse no continente africano.A urgência de atualização temática ficou clara no filme Apocalipse Now, do diretor Francis Ford Coppolla.

Lançado em 1978, o longa transporta a obra de Conrad para o Vietnã, o Congo tornou-se o Camboja, mas a essência está lá. O limiar entre sanidade e loucura encontra agora os horrores da guerra, um fator exponencialmente mais perturbador na década de 70 do que a exploração de marfim na costa africana.

Kurtz é agora um coronel recluso no meio da selva inimiga, vivido
brilhantemente por um Marlon Brando tão verossímil quanto possível. O sucesso do filme deu nova luz a obra e uma nova geração que não conhecia Conrad decidiu ler “O Coração das Trevas” já tendo “experimentado” o filme.

Li o livro duas vezes. A primeira impressão à cinco anos atrás foi totalmente avessa a releitura que fiz a alguns meses.

Só percebi o poder da literatura que tinha em mãos após reler mais calmamente a obra de Conrad. Na minha primeira leitura fiquei afoito a espera do surgimento de “Marlon Brando”, coisa que só aconteceria no clímax final, assim como no filme; e também fiquei um pouco deslocado pela presença de uma áfrica colonizada tão comum para mim nos livros de história.

A isquemia estava aí. O livro não foi imaginado como histórico, mas como urgente e atual. Meu olhar captava a África de Conrad como um lugar exótico e paradisíaco ao seu modo, como em um documentário da National Geografics. O olhar não podia enxergar o “exótico” mas sim o “horrível”.

A tecnologia em maior ou menor escala atingiu todo o planeta, a globalização encurtou distâncias e em um piscar de olhos estamos as vésperas da primeira Copa do Mundo na África, estamos em um mundo desmistificado. O leitor contemporâneo desatento, que abre pela primeira vez a obra de Conrad, está condenado a ver tudo aquilo como “um relato sobre o passado histórico da colonização”.

Que pena.

A isquemia é a falta de sangue em um órgão ou tecido, e muitas vezes ataca de forma irônica o coração, centro do pulsar e da distribuição da vida, o local aonde todo o sangue está obrigatoriamente condenado a circular. Por isso, hoje vejo com tristeza o pulsar do “Coração das Trevas”: isquêmico, altamente dependente do olhar cauteloso do leitor, cada vez mais disperso. Curiosamente a abundância de atualidade e urgência, que sempre marcaram a obra, está prestes a matá-la com um infarto do miocárdio.
* Texto publicado também em minha coluna no site "Atibaia News"

1 Comentário:

Ricardo Antonio Lucas Camargo disse...

Meu primeiro contacto com a obra de JOseph Conrad foi o "Lord Jim", no qual uma das facetas mais interessantes é precisamente a fronteira entre a coragem e a cobardia - no momento de praticar o seu ato de bravura para ser reconecido pelos pares, Jim, demasiado humano, abandona um navio cheio de muçulmanos em peregrinação a Meca, na certeza de que ele afundará, e, mais tarde, verifica que ele chegou a seu destino, tripulado apenas pelos passageiros, desmoralizando, inclusive, a autoridade britânica em face dos coloniais -. No Coração das Trevas, a própria questão dos limites da sanidade e da insanidade, da lealdade e da rebeldia - Kurz era o mais dedicado dos empregados da Companhia até o momento em que decidiu, cansado do abandono, constituir o seu próprio reino, em meio à selva -, do homem da Renascença cansado de ser instrumentalizado pelo utilitarismo próprio da era da Revolução Industrial (tema que, por sinal, foi enfrentado por Max Weber em "Economia e sociedade"), do homem que detestava mentiras (Marlowe) tendo de mentir para poder perpetuar a melhor memória de Kurz. Por sinal, este quase nos recorda uma espécie de Lúcifer no "Paraíso perdido", de Milton: um Anjo brilhante converte-se, de repente, no Opositor do Eterno. Entretanto, o entusiasta do Ocidente, que, no início da sua carreira, desejava a ampliação das conquistas culturais da Europa, já via na destruição dos bárbaros a condição inafastável do progresso: até nisto, realmente, é um homem da Renascença, embora não deixe, modo certo, de evocar o Hegel da "Introdução à história da Filosofia". Enquanto o desejo de destruição recai sobre os bárbaros, nada mais faz do que exprimir a idéia de que estes apenas estorvavam o avanço civilizatório e roubavam o espaço reservado por Deus aos europeus - insetos daninhos, na expressão de Kafka, cuja melhor sorte seria, mesmo, a destruição -.

 
Tema para Blogger Mínima 233
Original de Douglas Bowman | Modificado por :: BloggerSPhera ::