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sábado, abril 09, 2011

A Rede Social - Social Network




O assunto é propício, a realização coerente e suas personagens são reais, mas, muito além disso, “A Rede Social” tem algo em seu DNA que o torna mais que um grande filme: um retrato fiel sobre a modernidade e as relações sociais.

A história aparentemente não tem começo nem fim, não tem clímax, poucas cenas de romance, nenhuma de ação ou suspense...As personagens transitam sobre o imã central da trama o criador(ou um dos criadores) do “Facebook”, Mark Zuckerberg e sua forma pouco convencional de lidar com pessoas, relacionamentos e situações. Como explicar então o sucesso formidável da obra como um todo?

Não se engane. Do início ao fim, o filme é bem construído, ao começar pelo roteiro que amarra cada personagem e prende tudo ao redor da história e do conflito que acabou nos tribunais na disputa pela autoria da “idéia de ouro” que deu origem a rede social mais popular do mundo. A narrativa transcorre fluída e em nenhum momento existe o protagonismo desse ou daquele elemento individual.

David Fincher encontrou um equilíbrio perfeito para sua câmera, que antes adaptada ao ritmo frenético dos vídeo clips, agora se encontra quase documental. Um elemento régio, parte do cenário sob este ou aquele ângulo, que registra de forma imparcial e silenciosa a ação das personagens. Se fosse necessária uma palavra para descrever a direção do filme seria: imparcial. Duas? Imparcial e discreta.

Bem diferente de outros filmes que cheios de rebusques e ângulos rocambolescos chamam a atenção para a figura do diretor, podemos dizer que no caso de “A Rede Social” menos é mais.

O elenco é um dos principais, se não o principal, trunfos do filme que necessitava de uma atuação impecável para dar cor e brilho a história de personagens que além de reais ainda estão vivas e jovens. Imagine o fiasco de uma atuação medíocre?

Jesse Aisenberg, como Zuckerberg, Andrew Garfield como o brasileiro Eduardo Saverin e Armie Hammer como os gêmeos Cameron Winklevoss/Tyler Winklevoss conseguem sem preciosismo ressaltar cada elemento da personalidade de seus alteregos. Ponto para quem selecionou o elenco. Surpreendente inclusive a participação do ex-Spears e boy singer Justin Timberlake que não compromete ao interpretar Sean Parker, o criador do Napster.

Difícil definir aqui e ainda mais explicar para quem lê sem ter assistido a relevância da produção como obra cinematográfica. O filme não é necessariamente entretenimento e também não é um tratado sociológico ou antropológico apesar de transitar por vários desses caminhos.

O que vemos apesar da frieza dos fatos e da luta judicial que rondou os criadores do “Facebook” são ações e reações exclusivamente humanas.

A esperteza de um escroque intelectual mulherengo como Sean Parker mostra que nem sempre intelecto significa sucesso. A amizade de Zuckerberg e Saverin mostra como as vezes é complicado o relacionamento entre pessoas que por sua genialidade acabam criando formas próprias de auto-defesa. O protagonista inclusive se mostra arrogante, inescrupuloso, invejoso e em muitos momentos quase psicótico, parece impossível convencê-lo da necessidade de outros seres humanos.

Os gêmeos Winkelevoss também oferecem um contraponto interessante a história. São ricos, populares e pertencem a nata intelectual e esportiva de Harvard. São “enganados” por Zuckerberg que acaba “adaptando” uma idéia original e criando nas suas costas o “Facebook”.Sem mocinhos ou bandidos esse episódio é retratado como é. O facebook não existiria sem um ou sem outro.

Deixo aqui para encerrar a cereja do bolo. A cena que me causou um grande encantamento e ganhou minha torcida pelo sucesso do filme.

A última cena mostra Zuckerberg solicitando via “facebook” a permissão de amizade de sua ex-namorada. Ele atualiza a cada segundo repetitivamente a tela de seu monitor.

Com isso lembramos que o filme tem inicio com o término da relação dos dois, com a vendeta de Zuckerberg que insultou em seu blog a ex-namorada e decidiu criar um aplicativo para irritar as mulheres do campus comparando seus atributos. Dessa experiência surge tudo. 


 Refaço aqui um comentário escrito no começo deste texto. Depois da cena final conseguimos visualizar o inicio o meio e o fim(que sempre estiveram lá) e percebemos que as grandes histórias, reais ou não, famosas ou não, envolvem inevitavelmente homens e mulheres, relacionamentos e suas conseqüências. Alguém que aperta repetitivamente uma tecla em busca de um amor, uma amizade...etc.

Difícil imaginar que o “Facebook” surgiu porque alguém brigou com a namorada, ou porque era um nerd excluído em busca de aceitação, mas nem tudo precisa ser complicado como a gente imagina. Afinal uma rede social de duas ou de duas mil pessoas fala sobre a mesma coisa: comunicação.

Cisne Negro - Black Swan


  

"Ela dança as fases da lua tece vento e o ar rodopia..." (A Fada Azul - Oswaldo Montenegro)

Exuberante.

Como analisar Cisne Negro? Um filme tão complexo quanto exuberante, capaz de atrair e afastar a platéia ao propor um thriller psicológico que têm como plano de fundo um espetáculo erudito.

A história gira em torno de uma montagem da peça de balé “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky, aonde um grupo dirigido por Thomas Leroy(Vincent Cassel) vive a expectativa da escolha de uma nova protagonista que substituirá Beth Macintyre(Winona Rider) descartada pela idade e por não atrair mais o grande público para as exibições. Buscando a conquista do maior papel de sua vida Nina Sayers(Natalie Portman), uma bailarina talentosa e tecnicista ao extremo, começa a sofrer as pressões da luta pelo seu lugar ao sol, e quando o conquista, da pressão por mantê-lo.

Em paralelo presenciamos a chegada de Lily(Mila Kunis) uma nova bailarina que entra no grupo esbanjando carisma, sensualidade e espontaneidade, características que faltam na personalidade infantilizada de Nina.

Adicione a esse ambiente já tumultuado a onipresença de Erica, mãe da protagonista, que persegue a própria filha e projeta nesta a infelicidade e paranóia pelo sucesso que não obteve em seu passado.
Junte todo esse conteúdo e entregue ao diretor certo que a receita de um thriller psicológico azedo e fabuloso será infalível. E este é o caso.

Aranofsky não é um diretor fácil. Genioso não oferece atalhos para seu público e exige mais que atenção,exige dedicação. Da mesma forma aqueles que se entregam aos detalhes de seus filmes não se arrependem e saem com uma experiência cinematográfica no mínimo surpreendente.

Assistir Cisne Negro é exaustivo, como a rotina das bailarinas, que se entregam de forma paranóica  a dança. No raspar das sapatilhas, no estalar dos dedos, no alongar de cada fibra, no vomito e na bulimia, do corpo medido com fita métrica e nos ensaios repetidos a exaustão inclusive no filme; Aranofsky nos entrega um ambiente psicologicamente perturbado, repleto de pressões e escravo do rigor técnico - e estar nesse ambiente é uma experiência compartilhada também com o público.

Portman está fantástica. Sua performance é a chave para todo o arco dramático da narrativa. Sua mudez ou sua fala vacilante, a dificuldade acentuada na articulação de frases entre outros detalhes mostram a sua maneira de encarar o mundo, na verdade de ser oprimida por ele. Sexualmente retraída, infantilizada, morando com a mãe sem direito a privacidade em um quarto rosa que bem poderia pertencer a uma menina de 14 anos, Nina é o cisne branco perfeito para a peça em construção. Seu rigor técnico e seu semblante angelical e casto fazem com que sua performance seja irretocável, mesmo que desprendida de certa emoção. O problema aparece na entrada do Cisne Negro que dá nome ao filme. O papel exige sensualidade, interpretação, arrogância, confiança e muitas outras características que incomodam a personalidade de Nina causando um bloqueio enfrentado a base de paranóia.

E essa pressão incentivada por um obstinado Cassel acaba desmoronando sobre a personagem interpretada por Kunis. Ora vista como amiga, ora como algoz é difícil saber exatamente quando entra em cena a Lily real ou aquela que só existe nos olhos de Nina.

Percebemos que sexualmente, seja retirando uma calcinha sob o vestido ou indo as vias de fato, Lily é tudo o que Nina não se permitiu ser. Essa contradição passa a ser projetada no sentido inverso, de dentro para fora de Nina que em certo momento não diferencia mais realidade e ilusão, não se sabe se Lily está em sua mente ou no mundo real.

Cassel e Rider  colaboram como as duas principais artérias emocionais que sobrecarregam a protagonista. Leroy nunca está satisfeito e não desiste de tentar despertar o cisne negro presente em Nina. Ele sintetiza as pressões do grupo de balé e a extrema concorrência pelo papel principal enquanto Macntyre simboliza a decadência do belo e o peso inevitável da idade que uma hora ou outra encerra a carreira de uma bailarina independente de sua excelência técnica.

O filme têm ainda muitos aspectos semióticos interessantíssimos. O constante uso do branco e do negro que muitas vezes delimita a realidade “clara” dos momentos felizes de Nina, com as sombras de seus temores e pesadelos evidenciados inclusive na maquiagem que acompanha a imersão dos delírios da protagonista no “escuro”. Perceba que até a escolha de Kunis não foi ao acaso, sua tez morena é também o oposto da palidez de Portman.

Para encerra deixo aqui o que foi para mim a sutil presença da genialidade da câmera de Aranofsky. O espelho é o elemento unificador da história. Sempre presente, revela o olhar perturbado de Portman, mas não consegue revelar seu interior, acompanha as bailarinas, os ensaios, está no camarim, no banheiro, em qualquer lugar como um expectador onisciente. Em muitos momentos cabe a ele o papel de trazer à trama o suspense quando a imagem que reflete contradiz o real.

Em seu momento de maior brilhantismo participa do clímax da produção e encerra seu papel como arma do crime, faca de vidro que reflete.




A dança final é fantástica e mostra de forma assombrosa a transformação de Portman na bailarina perfeita, cisne negro e branco em sintonia. O único momento de real felicidade de sua protagonista fica para os passos finais quando ela se sente enfim aceita diante de todos.

Para quem assistiu o filme me permitam concordar: sobe a trilha, sons de aplausos em crescente.
Um murmúrio: Perfect. 


O Vencedor - The Fighter



"... In the clearing stands a boxer
And a fighter by his trade
And he carries the reminders
Of ev'ry glove that layed him down
Or cut him till he cried out
In his anger and his shame
"I am leaving, I am leaving"
But the fighter still remains
Lie la lie..."

(Simon and Garfunkel - The Boxer)

O lutador de boxe é uma figura icônica. Quase todos campeões que triunfaram sobre os ringues e levantaram um cinturão mundial possuem uma história de superação marcante na trajetória que tornaram seus punhos os mais temidos de uma época.

Mick Ward não foi diferente. Campeão dos pesos médios em 2000 teve sua história narrada no filme “O Vencedor”(The Fighter) que concorreu ao Oscar de Melhor Filme.

A “profissão” de lutador é bem diferente da luta praticada como esporte e isso influencia muito a história de seus protagonistas. A grande maioria dos homens e mulheres que aceitavam entrar em um ringue para trocar socos com um adversário arriscando com isso sua integridade física não o fazia pela simples arte de competir, mas por algo mais, geralmente por sobrevivência ou por uma vida melhor longe da miséria dos subúrbios.

Trabalhadores braçais, jovens pobres, imigrantes longe de casa, marginalizados e excluídos por preconceitos raciais de cor ou credo, era essa a matéria prima que gerou grandes campeões de boxe, que lutavam contra os próprios destinos antes de nocautear o lutador do outro corner.

Ward lutava contra inimigos invisíveis que quase destruíram sua carreira. Filho de uma conturbada família de imigrantes irlandeses, viveu sob a sombra de seu irmão mais velho, o também ex-boxeador Dick Ecklund, adorado no microuniverso familiar e bairrista por tudo o que quase foi ao protagonizar um embate histórico contra a lenda Sugar Ray Leonard.

Esse embate serve como assunto recorrente nas linhas do roteiro que mostram toda a frustração de Ward que não consegue ser protagonista de sua própria carreira ofuscado pelo irmão - que é na realidade a ovelha negra da família.

Ecklund jogou pelo ralo uma carreira promissora e se entregou ao vício do crack. Passou a viver como junkie que dividia seu tempo treinando Ward e gravando um documentário sobre a decadência dos viciados para um canal de TV que alimentava seu estilo de vida com uns trocados em troca de sua imagem. Nessa rotina é visível a diferença de personalidades dos irmãos que parecem uma parábola do filho pródigo atualizada.

O mais velho nesse caso é aquele que gastou todos seus bens(nesse caso seus dons) e partiu para uma jornada de satisfações pessoais retornando para a família quando percebeu estar no fundo do poço.

Ward  é o bom irmão, ajuizado, obstinado em seus treinos, trabalhador, e dedicado não somente aos planos que traçou para ele, mas para todos aos quais ama. Seu sonho não é pessoal, mas coletivo, a luta pelo cinturão é uma causa de família derivada da trajetória frustrante de Ecklund. Até sua postura no ringue reflete isso, Ward resistia a mais pancadas que um lutador comum, batia igual, mas agüentava mais - lembrando um pouco inclusive Jake La Motta.

Nessa relação é clara a predileção da mãe pelo filho mais velho, que é de certa forma “mimado” com uma proteção e veneração que ignora suas idas e vindas recorrentes à cadeia.

Assim como os grandes acontecimentos que marcam a história mundial, e em um recorte particular, a história de qualquer esporte, conhecemos apenas a visão dos vencedores, aquele que por um motivo ou outro se destacaram dos ordinários e medíocres delegados ao esquecimento. E Ward sabia disso. Compreendia que para ser mais que um herói de bairro, como seu irmão teria, que travar lutas pessoais dificílimas antes de subir no ringue e destroçar as costelas de seus adversários. E isso significaria ser duro e até renegar a mãe e o irmão pelos quais possuía legítima adoração.

A história só foi para as telas pela dedicação do ator Mark Walbergh, que além de produzir o longa ficou com o papel principal.

O resultado? Um filme sensato, sem muitos floreios, mas com escolhas certas.

As câmeras são antigas, no sentido literal da palavra. Opção do diretor David O´Russel que imaginou que somente dessa forma conseguiria o efeito planejado que funciona de forma magnífica.

Apoiado por uma fotografia com luzes frias e um movimento constante de câmera sem apoio(a famosa “mãos a obra”) o filme muitas vezes adquire uma cara de documentário.

As excelentes atuações de Melissa Leo como Alice, a mãe do lutador, e de Christian Bale como Ecklund, sustentam a ausência de brilho pessoal de Ward/Walbergh, repetindo no casting as linhas do roteiro. Tanto que ambos receberam com justiça os Oscars de ator/atriz coadjuvante pelo filme.

Acertadamente, “O Vencedor” retrata mais do que apenas a carreira de Ward, mas todo o drama ao redor dela.

Na construção e eficácia não chega aos pés de “Touro Indomável”, e essa comparação, apesar de injusta é necessária, porque sempre é a primeira que surge quando um filme sobre boxe é lançado.

A história é previsível por natureza: começo difícil, ápice redentor. Com um número necessário de clichês e uma quantidade reduzida de cenas de luta de qualidade, o filme vence, como diz o título, não por falar de boxe ou de um ex-campeão, mas por falar de alguém que lutou contra um destino medíocre para se tornar algo mais e cravar seu nome na história.

Vencer não é um resultado, mas um processo.

Bravura Indômita - True Grit (2010)


 
"- Who's the best marshal they have?
- Bill Waters is the best tracker.
                   
The meanest one is Rooster Cogburn,
double-tough, knows no fear.
                    
L T Quinn is the straightest.
He brings them in alive.
                  
- Where would I find this Rooster?
- At the Federal Court this afternoon."
"- Mr Rooster Cogburn?
- What is it?

   
                   
I'd like to talk with you a minute.
They say you're a man with true grit."


Faroeste ou Road Movie?

Parece bobagem discutir esse ponto de vista diante da realização tão bem executada do remake da década de 60, “Bravura Indômita”, que nas mãos hábeis dos irmãos Cohen transformou-se de forma prodigiosa em um amálgama de humor negro, western e atuações harmoniosamente convincentes.

A primeira vista, parece que tudo caminha para uma tradicional(e deliciosa) história de faroeste americano. A jovem Mattie Ross(Hailen Steinfeld) obcecada por vingar a morte de seu pai, contrata o oficial beberrão em decadência Rooster Cogburn(Jeff Bridges) para perseguir o pilantra Tom Chaney(Josh Bronlin). No rastro do bandido, correndo por fora o “Texas Ranger” La Boeuf(Matt Dammon), tropeça na dupla e tenta tirar vantagem dos talentos de “rastreador” de Cogburn.
O problema é que Chaney se misturou ao bando do escroque Ned Pepper e ruma de forma desconhecida pelas terras ermas do oeste americano.

Pois bem cara-pálida com o cenário armado para as balas começarem a rolar, a impressão que tive é que de forma assertiva e decidida o roteiro, dos também diretores Ethan e Joel, economiza tiros e despeja verborragia e sentimento, sarcasmo e lirismo, tudo planejado e bem esquadrinhado.

Nesse momento que senti o espírito dissonante de um road movie de cavalos começar a surgir. Primeiro que todas as personagens principais não pertencem ao lugar onde estão. Mattie, está longe de casa atrás do assassino de seu pai, Cogburn, como um U.S. Marshall, não tem moradia fixa, mas trabalhos a serem executados e LaBoeuf vêm desde o Texas perseguindo Chaney e colecionando fracassos.

Seus caminhos se cruzam e a amizade e os sentimentos desenvolvidos por eles acontecem em momentos de teste de caráter e perseverança “à caminho” de um objetivo - na estrada por assim dizer. É assim quando Mattie cruza o rio a cavalo, quando LaBoeuf demonstra bravura em uma tocaia, ou ainda quando Cogburn tenta provar seu valor atirando em broas de milho...

Ao dividirem uma fogueira, falarem sobre direito ou histórias de vida fica evidente as diferenças de caráter e personalidade do trio de protagonistas que não se encaixam em perfis de bondade/maldade convencionais e como a situação de “viajantes com um objetivo em comum” evidencia a união do grupo.

Mattie é sistemática, perspicaz e surpreendentemente madura para seus 14 anos, ao mesmo tempo seu caráter não é lá uma singeleza. Desde o início do filme ela exige vingança, o que significa a morte de Chaney. Perceba que ela faz questão que a morte seja fruto do crime cometido contra seu pai, para ela uma forca no Texas não torna sua vendeta válida.

Cogburn é um beberrão escolhido por Mattie pela sua falta de escrúpulos na hora de perseguir um foragido. Quase sempre bêbado ele parece mais um escroque falido que um pistoleiro experiente, apesar de ser ambos.

LaBoeuf é quase caricato, com suas esporas, alto grau de instrução e precisão cirúrgica com as armas, cabe a ele mostrar que no western de Bravura Indômita o “melhor” homem, não será necessariamente o mais eficiente. Apesar de ser mais jovem que Cogburn e claramente mais instruído que Mattie, LaBoeuf fica constantemente encurralado por ambos, perde as discussões para a garota e vê a bravura e experiência de Cogburn triunfarem aos poucos, enquanto a trilha que leva a Chaney é revelada.

Com tudo isso o filme encontra ainda espaço para tiradas sarcásticas sensacionais como as últimas palavras de um índio negadas na forca ou as crianças, também indígenas, sendo chutadas sem mais nem porquê.

O elenco está absurdo. Jeff Bridges entrega uma fala arrastada e quase ininteligível, pesadelo para os tradutores, que cumpre seu papel de parecer o tempo todo bêbado ou entorpecido. Steinfeld convence no papel de garota prodígio e é dela a força da narrativa que permite que as outras personagens flutuem ao redor de seu magnetismo. Dammon e Brolin são verossímeis na medida e cheios de detalhes mínimos que reforçam a credibilidade de seus papéis.

Talvez o destaque técnico mais assombrosamente visível seja a fotografia de Roger Deakins que dá ao filme momentos de um lirismo quase desconexo. A cena final merece um prêmio à parte pela emoção entregue ao público de forma catártica, com verdadeiro heroísmo como há muito não se via em um faroeste.

Junte a isso os rompantes de violência(subliminar ou direta) característicos da filmografia dos Cohen e terá um espécime diferente do original e de quase qualquer outra obra do gênero.

Sem descambar para o sentimentalismo barato, Cogburn encontra sim sua redenção em Mattie, assumindo um papel paternal no qual revela ter fracassado anteriormente. De volta recebe dela um tratamento filial, em uma das últimas cenas do filme, uma “viagem” de trem que espero que todos compreendam. Falar mais poderia estragar a diversão de quem ainda não assistiu.

E por falar em viagem, reforço aqui os argumentos iniciais. Nesse road movie adaptado, as seqüências que dão cor e textura ao filme acontecem entre uma parada e outra. Nos encontros pelo caminho com cadáveres presos em árvores, em cabanas isoladas, em desfiladeiros ou minas abandonadas. Não existe um ponto fixo, uma referência, só o caminho a ser seguido e a aventura que se desenvolve por ele.

“Telma e Louise” ou “Paris Texas”, “Easy Rider” ou “Rain Man”, nada pode ser feito quando o destino vivido na estrada exige seu espaço entre os atores e o roteiro. De carro ou à cavalo, em rodovias, no deserto ou no oeste selvagem o espírito é o mesmo.

As personagens caminham para o imprevisível à sua frente, se a morte ou a redenção as espera na próxima curva isso é uma resposta que só o público pode descobrir sem arcar com as conseqüências. Sabemos que se trata de um road movie quando nos perguntamos: E se as personagens parassem aqui, se sentassem, e interrompessem sua jornada e resolvessem seus problemas por aqui mesmo? E temos como resposta: Impossível, o filme terminaria sem final.

Para nossa sorte existem ainda seres de “Bravura Indômita” para seguirem seus caminhos enquanto assistimos.

Um triunfo cinematográfico cheio de estilo.

terça-feira, abril 05, 2011

Cinema Catástrofe




Significado de Catástrofe

s.f. Grande desgraça, acontecimento funesto, calamidade.
Fim lastimoso.
Literatura Acontecimento decisivo que leva ao final de uma tragédia.
(Do Gr. katastrophe)

Ligo a televisão após o jantar, dou boa noite religiosamente ao apresentador do telejornal e quando percebo parece que estou dentro de um filme. E daqueles bem ruins para suas personagens. Nos últimos meses de alguns anos para cá, terremotos na China, no Chile, Haiti, e em mais meia dúzia de cidades, chuvas e inundações matando milhares e atingindo milhões no meu país tropical, São Paulo até vá lá estamos acostumados, mas Salvador? “O sertão vai virar mar” diria Antônio Conselheiro. 

Ninguém se quer conhecia a palavra "Tsunami"... eu mesmo achava que era apenas algum fáctóide de mitologia nórdica, até acontecer no Japão.

Vulcão sem atividade a milhares de anos desperta, avião com presidente cai, morro desmorona, faltaram só naves alienígenas invadirem a Bulgária...

Espero a qualquer minuto minha solene apoplexia no sofá ser interrompida pelos créditos do filme com o nome do estúdio.

Quando o tema é catástrofe ninguém mais percebe a diferença entre ir ao cinema e abrir o jornal do dia. Saudade da época(recente) aonde os filmes desse gênero estavam mais para ficção do que para documentário.

Quem tem um pouco mais de 20 anos e sempre gostou da sétima arte, deve se lembrar que a semana de 4 de Julho de 1996 foi marcada por expectativa e filas nos cinemas pelo mundo. O dia da independência dos Estados Unidos marcou a história do cinema, e não adianta torcer o nariz para as bandeiras tremulando e a papagaiada ideológica(até no título !) que às vezes embrulha o estômago, porque “Independence Day”, de Rolland Emerich, foi o marco mais significativo da nova leva de filmes catástrofe que perduram até hoje.

O cinema sempre teve uma queda declarada pela tragédia, e quando digo isso não estou falando do significado grego antigo, ou os famosos dramalhões, mas da definição que hoje se emparelha ao de  hecatombe: Corpos se empilhando pela fragilidade humana de resistir a um poder superior e agressivo, geralmente uma força natural ou desconhecida.

Não é de agora que as produções de Hollywood flertam com terremotos, maremotos, vulcões, aviões em pane, transatlânticos afundando e praticamente qualquer coisa que ofereça muito, muito apelo melodramático. “Aeroporto” de George Seaton é considerado o primeiro exemplar genuíno do gênero que inaugurou uma longa lista, que só na década de 70, conta com: “Inferno na Torre” de John Gullemin e Irwin Allen, “O Destino de Poseidon” de Ronald Neame, “Terremoto” de Mark Robson, entre outros.

Os filmes catástrofe estouraram; literalmente... mas como um balão colorido e pomposo tiveram uma breve vida. Devido a inúmeras limitações técnicas que tornavam quase impossível a reprodução fidedigna da maior parte das desgraças que despontavam logo no título das produções o público perdeu o interesse, afinal não tinha graça ver um terremoto ruindo maquetes claramente de isopor...

Em 1996, algo novo estava preste a acontecer. Os efeitos especiais foram aperfeiçoados nas décadas de 70 e 80, sobretudo explorando os ambientes e mundos fantásticos da ficção científica e estavam à caminho de avançar sobre um novo desafio: tornar crível as maiores tragédias naturais e desconhecidas - de um cataclismo à uma invasão alienígena, chegando sorrateiramente pela porta da cozinha do cotidiano da dona de casa.

Méritos para os desbravadores.

Me lembro de como fiquei boquiaberto da primeira vez que assisti “Independence Day” e “Twister”(com a vaca voando). Não era nenhum tapado em cinema e mesmo assim tive a sensação de que não tinha visto nada parecido e que talvez nunca veria novamente...

Hoje com a monotonia da repetição a primeira leva de filmes catástrofe pós anos 90 que trouxe ainda “O Inferno de Dante”, “Armagedon”, “Godzilla” e “Impacto Profundo”, parece esquálida e sem graça, mas na época me lembro bem da sensação que era ver “aquele filme do vulcão”, “aquele outro do asteróide”, “aquele do lagarto do tamanho de prédios”...

Grosso modo, podemos dizer que tínhamos visto coisas muito mais fantásticas antes com “Guerra nas Estrelas” ou “2001 – uma Odisséia no Espaço” mas dessa vez o apelo ao público era diferente.

Os efeitos especiais tinham um propósito mais obscuro, o de trazer para a realidade o apocalipse, o fim da humanidade, a revolta da natureza... Quase nenhuma profecia do livro bíblico de São João foi esquecida para gerar mais e mais roteiros que de falas mesmo, eram ralos.

Pelo que observo atualmente, e fazendo uma auto-análise, os estúdios em breve estarão em maus lençóis. Há pelo menos 5 anos ignoro qualquer filme que destrua Nova York com profecias maias, pragas bíblicas, desequilíbrios solares, alienígenas, monstros e coisas do gênero.

Tomo conhecimento parcial e desinteressado por barcos à deriva, aviões em pane, vírus mortais e dramas em geral que incluem prédios e construções desabando, bombas explodindo, caos e terrorismo de milhares.

A cada ano a arrecadação dos “blockbusters catástrofe” despenca pelo mundo e nenhum produtor parece entender. O povão tá querendo ver super-heróis salvando o dia no final de semana(não sei até quando...).

A população está ficando cansada de tragédia de segunda à sexta-feira no noticiário, esta percebendo que aquele “papo” de que a natureza reage ao mau uso que fazemos do planeta é verdadeiro e que em breve teremos sim mais e mais problemas com fogo, ar, terra e água; seja em excesso ou escassez. Aviões caem, prédios desmoronam, navios afundam e ultimamente parecem mais propícios a obedecerem estas diretrizes. Faltam somente asteróides, monstros japoneses e extraterrestres.

Respondo boa noite ao fim do telejornal, mas dormir tranqüilo mesmo... Foi-se o tempo.



domingo, abril 03, 2011

Bad Lands - Terra de Ninguém




Ser parecido com James Dean.

Este é o tema de Terra de Ninguém(Bad Lands), filme de 1973 do diretor Terrence Malick, - não confundir com o ótimo “No Man´s Land”, de 2001, que aqui no Brasil recebeu o mesmo nome.

Assombroso e distante, o filme nos apresenta o jovem casal de deliquentes juvenis Kit e Holly, vividos de forma fugaz por Martin Sheen e Sissy Spacek.


Sheen aos 30 e Spacek aos 24, estão críveis nos papéis de jovens de 25 e 15 anos, respectivamente encarnando o bad boy inconseqüente e a ninfeta fútil clássicos atraídos pelo destino.

A desilusão de uma geração toda transborda no niilismo furioso e adolescente que permeia a não razão dos atos extremos de um casal tão infantil quanto vazio.

Kit é o lixo da cidade. É dispensado do trabalho como lixeiro e representa uma geração desmotivada e sem perspectiva, sem ilusões de grandeza ou mesmo uma grande ideologia para seguir como norte. Não é o contraventor decidido é como uma criança que pisa em uma formiga por maldade pura e ingenuidade ao mesmo tempo. Conhecendo o ato, mas não a razão e o significado que contém Kit está armado e perigoso. Armado não de idéias, mas com pólvora e balas que são atiradas como se não fossem realmente capazes de matar.

Holly é uma bonequinha suburbana. Nos shortinhos brancos apertadinhos recém preenchidos com alguma carne, uma menina que se preocupa com os estudos, lê as revistas para adolescentes e espera uma paixão arrebatadora. Ao mesmo tempo é tão vazia que é capaz de fugir de casa só por não ter nada melhor para fazer e “inventar” uma paixão só para escrever a palavra amor em seu diário.

Eis uma sina e tanto para uma geração inteira de jovens que assombrou os Estados Unidos criando um colapso moral e de comportamento que minou a sociedade conservadora e quase ruiu seus alicerces familiares.

A vida vivida a beira do nonsense é retratada por Mallick através de cenas poderosas e da recorrência da morte. Um cachorro e um peixe moribundos dando seus últimos suspiros em imagens ou a citação do verbo “morrer” e “matar” até quando o assunto são galinhas e bois utilizados como alimento.

O “spring of kill” do casal em fuga é memorável - por vezes Kit afirma não sabe dizer por que deixou esse viver ou atirou naquele outro...

Nem a personagem que agoniza pergunta o que fez de errado. Apenas se conforma.

A casa construída na árvore, totalmente irreal e infantil, as cenas em um casarão e o roubo de um cadilac e um chapéu mostram as aspirações do subúrbio que vive o sonho americano. Crianças sonham com casas na árvore e adultos com cadilacs e mansões.

A relação entre Kit e Holly é tão fria quanto possível em um pacto selado a sangue. Apesar da adolescente se declarar apaixonada em seu diário lido em off o que vemos é uma relação sem arroubos de sentimento, algo ocasional e raso. Até o sexo se revela uma descoberta insossa...

Preocupantemente real.

O pesadelo de psicólogos, papais brutos e mamães amáveis, vestia jeans colado ao corpo, jaqueta e um inconfundível topete. Vestia saia rodada, fita no cabelo e lia fotnovelas. O absurdo da existência humana e do conviver em sociedade alça vôo para além de Sartre ou Camus e atinge a adolescência, uma fase raivosa cheia de energia para gastar. James Dean.

Para encerrar o quadro magnífico do cenário norte americano de toda uma época  Mallick mostra a prisão de Kit como algo glorioso e redentor. Os policiais, que representam a lei e teoricamente a sociedade americana, não condenam Kit, mas mostram certa idolatria orgulhosa em meios sorrisos e atos de admiração. “Um pente pra você colega!”


O estereótipo da felicidade do “American Way of Life” começou a ser destruído muito antes de Lester Burhan abrir a porta de sua “vida às vésperas da morte” em “Beleza Americana”. A família bem sucedida e realizada por fora e embolorada por dentro em suas relações dava as caras em muitas versões e gerações, dentre elas nos pais que não conseguiam segurar em seus lares os casais jovens que poderiam surtar e cruzar o estado atirando e cometendo crimes que beiram a imbecilidade.

"Terra de Ninguém" é assim, como um retrato, com um toque onírico e fantástico majestosamente orquestrado por Mallick. Parecem fotos em slide e não necessariamente cenas em movimento. As terras ermas de "Bad Lands"  são jovens sem futuro. Um filme sobre um tempo e sobre um ícone.

Hipocrisia: Todos amam James Dean, mas sua morte é necessária.




quarta-feira, março 23, 2011

O Sonho de A Origem e a Realidade de Matrix.





E se o que estivéssemos vivendo não fosse real?

Um sonho difícil de acordar onde as leis da física são manipuláveis e o conceito de tempo e espaço se confunde com o que somos e para onde vamos. Dúvidas filosóficas, metafísicas, espirituais e um flerte com a morte real ou imaginária, a vida física palpável com nervos e fibras se esvaindo em sangue ou a morte potencial da alma, do cérebro, da sanidade...

A dor apenas um impulso elétrico independe do dano real causado em nossa estrutura, uma falha de software e não(necessariamente) de hardware , diria o aficionado em computadores.

Gostaria de estar falando de “A Origem” novo filme do genial e competente diretor Christopher Nolan, mas sinto estar falando de Matrix. Infelizmente estou falando de ambos.

Um elenco afinado, incluindo um Leonardo Di Caprio que segura a onda como protagonista, após se graduar na "escola Scorcese de artes dramáticas", consegue direcionar o público sem rodeios para o que interessa, a história. Contando ainda com uma câmera impecável, edição de som e imagem soberbas, fotografia inspirada e um final tão previsível quanto desnorteador... Sem dúvida não estamos falando aqui de qualquer coisa, de mero entretenimento, mas de 140 minutos que valem cada décimo de segundo.

Filme para raros paladares, sendo que muitos não conseguirão entender quase nada do roteiro construído em minúcias sem a preocupação de voltar atrás para explicar o que aconteceu. Fique atento porque cada detalhe é necessário para não perder a fina linha de raciocínio que liga o início ao fim do filme de uma forma soberba, quase imperceptível.

O que falta então para “A Origem”? Com o perdão do trocadilho: originalidade.
A densidade da história não faz com que ela seja inédita. Que pena.

E estamos falando de um ótimo roteiro. Imagine uma realidade aonde dormir pode ser perigoso. “Ladrões” de sonhos que invadem o seu sono podem roubar informações valiosas enquanto seu subconsciente luta para defender informações que você considera confidencial. Existem “arquitetos” que criam as projeções, as cidades em forma de labirinto que serão “povoadas” pelos sonhadores. Existem totens, objetos individuais que são a garantia de cada um para distinguir a realidade do sonho; e claro o desafio que dá nome ao filme. “Inception”, porcamente traduzido como “A Origem”, seria na realidade o ato de “plantar” uma idéia em uma mente para que ela se desenvolva e de origem(agora sim) a um pensamento. Roubar uma idéia é simples, criar uma não. Imagine tudo isso dividido em camadas, sonhos dentro de sonhos, em uma grande confusão sobre o que é real e o que não é.

Por mais que tudo isso pareça grego, quando assistimos vêm, quase que automaticamente, uma sensação de familiaridade... Lembrei de “Cidade das Sombras”, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças” mas é inegável que estamos falando novamente de “Matrix”, talvez o maior expoente moderno de cinema e pesadelo para qualquer roteirista que tenta escrever algo original sobre ficção científica. 

Não tem como evitar comparações. Podem tentar numerar diferenças de um a mil, mas o que salta aos olhos são as semelhanças de um dez que sejam. 

O Sonho de A Origem não é diferente o suficiente da realidade projetada na Matrix.
Do movimento de câmera ao roteiro. Por um motivo ou outro existem sonhos, nos sonhos pessoas que “escalam” paredes e trocam mais balas que em uma realidade normal, existe ação, mas ela é apenas a cereja do bolo, existe suspense, reviravoltas, e o questionamento recorrente se a transição entre real e imaginário já aconteceu ou está por vir. Mais do mesmo.

Não quero que entendam mal. Existe muita originalidade no longa de Nolan e também competência na sua direção de cena e sobretudo de atores. Para citar apenas um dos pontos fortes, perceba o amadurecimento característico de sua câmera capaz de transformar fantasia em cinema adulto, como fez antes com “Batman Begins”, “Cavaleiro das Trevas”e “O Grande Truque”. Em “A Origem” não existe bem e mal, nem certo ou errado. Por mais que as situações sejam absurdas as personagens são absolutamente críveis, com desvios de caráter, egoísmo e reações que combinam mais com vilões que com mocinhos. Não existem exageros estéticos, nem malabarismos desnecessários.

Sem apontar este ou aquele como superior fica aqui a certeza de estarmos falando sobre dois filmes extraordinários.

É claro que a idéia original sempre vai levar o crédito e talvez seja isso que impeça “A Origem” de atingir todo seu potencial como a obra cinematográfica que é, mas não representa.
Não adianta voarmos hoje em aviões supersônicos, o primeiro foi o 14 Bis e seu inventor foi Santos Dumont. A história não perdoa, ela registra.

Confesso que torço para que novos filmes apareçam trazendo propostas e roteiros acachapantes, com cheirinho de carro novo, mas aprendi que não é todo dia. Vi surgir “Matrix” e de lá para cá já são 12 anos de citações e comparações quando o assunto é ficção científica.

Quem conseguiu entender “A Origem” com certeza fará parte de uma pequena minoria que, assim como eu, sofre por dentro imaginando como seria lendário se sua estréia fosse em 1998 e não em 2010.


Matrix

Um breve devaneio sobre Filosofia e a Virtualidade Real
Há mais de dez anos atrás o cinema receberia em suas telas um filme que revolucionaria a história da ficção científica de uma forma toda particular. Diferente das bigas de Ben-Hur e das lágrimas naufragantes de Titanic, Matrix chegou de forma anônima as telonas com a proposta de retratar de forma grandiosa, não o passado, mas o futuro. Sucesso instantâneo de público e crítica, o longa dos irmãos Wachowsky, garantiu à dupla de nome quase impronunciável, o sinal verde no orçamento para duas seqüências. Abusando dos efeitos especiais e da ação, as seqüências Reloaded e Revolutions, não chegam aos pés da obra original e acabaram enterrando a franquia em uma aura de “tudo aquilo que poderia ter sido e não foi”.
O filme original tem diversos pontos inovadores. A estética toda estilizada e os consagrados movimentos de câmera em slow-motion se tornaram marcas registradas e ícones referenciais no cinema. O grande trunfo que garantiu ao filme um caráter mítico está por trás do figurino, da fotografia e dos efeitos especiais que ambientam muito bem o público à proposta do longa. Matrix é antes de tudo um filme cerebral, o alicerce que justifica seus malabarismos técnicos é seu roteiro.

Urgente, preocupante e imediato; o fio condutor que guia a história tinha uma pergunta instigante e ameaçadora em suas entrelinhas. Poderia um dia o homem ser escravizado pela tecnologia que criou?

As máquinas de Matrix evoluíram ao ponto de dominar os seres humanos e aprisioná-los em casulos. No filme vivemos em uma realidade virtual, e através de impulsos eletrônicos em nossos cérebros, podemos sentir emoções e tristezas, tudo para que nossos corpos gerem calor para alimentar as máquinas. Como grandes usinas, apenas “funcionamos” e a vida que vivemos não existe realmente.

A profundidade da história fez com que o filme se tornasse uma aula de filosofia completa utilizada inclusive em sala de aula das grandes universidades do Brasil e do mundo. Eu mesmo durante a faculdade estudei um texto da autora Maria Helena Chauí, falando sobre o filme, em uma de minhas infindáveis aulas de filosofia.

Matrix atualizou depois de 31 anos a mesma temática de “2001 uma Odisséia no Espaço”, realizado em 1968. O clássico dirigido pela lenda do cinema Stanley Kubrick, se tornou a base estética para toda ficção científica que seria produzida desde então. Sua história de mistério girava em torno de um monólito negro e da evolução humana, em uma busca pelo desconhecido. Além do alto conteúdo filosófico presente nas entrelinhas, a narrativa principal também trazia a “revolta da tecnologia contra seu criador”, personificada no computador de bordo HAL 2000 da nave Discovery, que após uma pane assume o controle e começa a eliminar seus tripulantes.

O impacto de Matrix, portanto, não vem necessariamente de sua originalidade, mas de seu tempo. 2001 Uma .... era claramente uma ficção, em uma época onde computadores tinham o tamanho de imensas salas e serviam ainda apenas para resolver cálculos básicos - sua temática não era ameaçadora. 

Quando a história do hacker Neo, uma espécie de messias virtual, chega até nós em 1999, estamos diante da revolução tecnológica proporcionada pelos computadores que se tornavam menores e mais eficientes a cada ano, encurtavam distâncias, armazenavam e distribuíam informações em disquetes, cds e discos rígidos, jogavam xadrez e superavam a mente humana.

Hoje, mais de dez anos depois, somos ainda mais dependentes das tecnologias que criamos. O computador aos poucos assume o centro das casas, ficando responsável pelo entretenimento, pela informação e pelo lazer de seus habitantes. A cultura que foi revolucionada com o papiro, hoje vê o fim de sua existência real e palpável. Grandes jornais e revistas estão migrando para o meio virtual e deixando de existir no mundo real assim como muitas coisas comuns de nosso dia-a-dia. Estamos diante de uma tendência preocupante: músicas, filmes, livros estão perdendo sua existência concreta e “virando” bytes armazenados em um disco. Você mesmo que lê agora este artigo optou pela Internet neste instante como fonte de notícias e conhecimento. Será que paramos para pensar que talvez estejamos caminhando para uma virtualização da realidade ?

Amigos virtuais, conversas virtuais, jogos virtuais, e até vidas virtuais( anunciadas inclusive com o nome bastante coerente de “Second Life”) estão “roubando” nosso tempo que antes era gasto com interações reais.

Estamos diante talvez de um salto evolutivo da espécie, estamos migrando para outro ambiente. Semelhanças com a história de Matrix ?

Em pesquisa realizada na época de lançamento do filme, 15% dos entrevistados disseram acreditar que existe a possibilidade, de nesse momento, estarmos vivendo a realidade proposta pelo filme.

Sem a pretensão de ser a trombeta digital do anjo do apocalipse moderno não vejo com bons olhos nosso fascínio pelo mundo virtual que criamos, pela tecnologia sem limites que encurta distâncias e resolve nossos problemas por nós. E se alguém um dia puxar o plugue da tomada? Estaremos de volta a era do fogo com paus e pedras?

O grande triunfo de “Matrix” é ser mais que um filme. É gerar uma inumerável gama de assuntos urgentes para reflexão e oferecer ao espectador atento um bom motivo para questionar as diferenças entre a vida real e a vida virtual que se vive atualmente.

O próximo passo que já está sendo dado em direção ao novo advento da tecnologia são as pesquisas relacionadas a inteligência artificial. Não sei se daqui a dez anos estarei escrevendo sobre ciborgues, andróides e híbridos, ou se confortavelmente eles estarão escrevendo por mim, se como em Matrix receberemos diretamente através de agulhas pontiagudas espetadas em nosso cérebro as informações diárias que precisamos, mas ainda sinto uma reconfortante sensação de poder ao puxar o plugue do computador e em uma atitude de rebeldia contemporânea abrir um bom e velho livro de papel. Ainda estamos no comando, pelo menos por enquanto.... 

quarta-feira, março 16, 2011

A Estranha Mania de Ler Roteiros



Chapter Thirteen...

               "He types... On the SOUNDTRACK we hear the CASINO noise.

                                     JACK'S VOICE
                         It's all numbers, the croupier
                         thought. A spin of the wheel. A
                         turn of a card. The time of your
                         life. The date of your birth. The
                         year of your death. In the Book of
                         Numbers the Lord said: 'thou shalt
                         count thy steps" (Croupier - by Paul Mayersberg)

           
Parte da atração em ser um apreciador de cinema é colecionar hábitos inconvencionais em relação à grande maioria de espectadores casuais.

Estudar formatos, tendências, reconhecer o estilo de cada diretor, a filmografia de atores prediletos, colecionar trilhas sonoras, ser fã número 1 do editor de som fulano, saber de trás para frente os filmes lançados na Eslovênia na década de 70; os fetiches cinematográficos se manifestam em pequenos graus de curiosidade até um estado de obsessão bem próximo da paranóia.

Uma vez conheci um cara que tinha transtorno obsessivo compulsivo e piscava desesperadamente a cada cinco segundos. Menos quando assistia à um clássico do cinema italiano - Rosselini, Pasolini, Antonioni e principalmente Fellini, tinham um poder curativo quase shamanístico sobre ele.
Com tantas manias na prateleira para escolher, confesso que no início de minha vida de cinéfilo foi inevitável não ceder a tentação de ler roteiros.

Começou lá pelos meus dezesseis anos, quando já lia alguma coisa em inglês sem maiores dificuldades, e despertei minha audição para a genialidade de alguns diálogos que adorava guardar e repetir.

O acesso aos roteiros não era uma das coisas mais fáceis de se ter em mãos naquela época, me lembro que a Internet discada era uma porcaria, o número de sites sobre cinema era bastante reduzido e achar roteiros na web era procurar agulhas em um palheiro.

Nos primeiros anos, me deliciava em repetir exaustivamente no vídeo cassete minhas cenas prediletas, enquanto anotava em um bloquinho os diálogos em inglês.

Foi assim com “Táxi Driver”, “Blade Runner”, “Cães de Aluguel”, “Duro de Matar” “Máquina Mortífera”, e tantos outros nomes que eram selecionados somente pelo critério de número de frases bacanas de serem lembradas, sem preconceito com qualquer filme, adorava alguns diálogos de “Viagem Insólita”,  “Os Goonies” e “Exterminador do Futuro 2”.

  Travis:
Loneliness has followed me all my life.  The life of loneliness pursues me wherever I go: in bars, cars, coffee shops, theaters,  stores, sidewalks.  There is no escape.  I am God's lonely man.

I am not a fool.  I will no longer fool myself.  I will no longer let myself fall apart, become a joke and object of ridicule.  I know  there is no longer any hope.  I cannot continue this hollow, empty fight.  I must sleep.  What hope is there for me?(Taxi Driver - by Paul Schrader)



Após um tempo esse hábito virou um hobby bastante prazeroso, com a melhora da Internet e do ambiente de rede já era possível encontrar um ou outro roteiro para ler.

Achei no sebo uma vez uma tradução do roteiro de “Laranja Mecânica” e até hoje dou risada quando lembro minha satisfação.

Organizei em meu computador pessoal mais de cinqüenta frases selecionadas -que dariam um bom livro cheguei a pensar.

Aí passei na faculdade de jornalismo. O tempo ficou escasso e um belo dia meu computador queimou colocando fim de forma irremediável ao meu arquivo pessoal.
Como um vício é recorrente, uma hora ou outra sempre acabo por ler um roteiro ao invés de ler um livro. Sugiro a experiência, é um pouco estranho no começo, mas depois se torna tão agradável quanto ler um bom romance.

Por isso deixo aqui dicas de roteiros infalíveis para a leitura de um iniciante.
Qualquer um dos roteiros de longas assinados por Quentin Tarantino são um deleite; as linhas narrativas e diálogos cheios de sacadas e humor negro são realmente demais.
A maioria dos filmes de David Mammet também oferecem roteiros muito interessantes, que nem sempre atingem na execução o potencial das linhas, as tramas apresentam bons momentos de suspense e reviravoltas.

Aconselho a maioria dos suspenses policiais e desaconselho comédias e filmes de terror, que perdem muito sem o poder das imagens.

Para encerrar, existem ainda roteiros irresistíveis pela sua construção, pela narração em off das personagens. Alguns de meus prediletos estão entre eles: “Clube da Luta”, “Táxi Driver” e “Croupier”.


Tyler tugs at Jack's arm.

TYLER
We are God's middle children, with no special place in history and no special attention. Unless we get God's attention, we have no hope of damnation or redemption.

Jack looks at Tyler and they lock eyes in a stare.

TYLER
The lower you fall, the higher you fly.  The farther you run, the more God wants you back.

Jack does his best to stifle his spasms and quivers of pain.  Tears drip from his eyes.

TYLER
Someday, you will die.  And until you know that, you're useless to me.

Tyler's eyes fill with tears and he smiles.  Suddenly, Jack starts breathing heavily and he shakes his hand....( Fight Club - Jim Uhls)

 O que motivou este artigo foi um pequeno trecho do roteiro do filme “Croupier”, talvez a mais desconhecida das indicações citadas. Surgiu como uma recaída nessa semana aonde os números me perseguiram em datas, códigos, senhas, horas, limites, me peguei repetindo de cor um trecho que não lia há anos:

 “ É tudo números pensou o croupier. O girar da roleta. A virada de uma carta. O tempo da sua vida. A data do seu nascimento. O ano de sua morte. No Livro dos Números, o Senhor disse – Contarei vossos passos”

Quem estava perto pensou que eu era louco. Com um pequeno sorriso voltei para a casa e reli o roteiro completo. Louco não, só mais um cinéfilo cheio de manias.

 
 
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