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domingo, março 27, 2011

Julieta Venegas


Porque no supiste entender a mi corazón?
Lo que había en él, porque no?
Tuviste el valor de ver quien soy
Porque no escuchas lo que está tan cerca de ti?
Sólo el ruido de afuera y yo
Que estoy a un lado desaparezco para ti
No voy a llorar y decir que no merezco esto
Porque es probable que lo merezco
Pero no lo quiero
Por eso Me voy
Que lástima pero adiós
Me despido de ti y me voy
Que lástima pero adiós
Me despido de ti


(Me Voy - Julieta Venegas)

Julieta é um nome que carrega consigo um apelo mundial. Nenhuma Julieta nasce anônima ou desconhecida. Nenhuma tem o direito de apartar de sua vida o amor, a tragédia e o lirismo. Se o mundo não fosse tão grande e tão cheio de pessoas esquisitas diria que todas Julietas sem nenhuma exceção já deveriam nascer destinadas a viver um grande amor. Não existiriam Julietas solteironas, celibatárias, feministas ou adeptas de qualquer ideologia anti-amor; essas morreriam no parto antes de exercer seu direito de escolha que as privassem de executar seu destino de protagonistas na tragédia maior do teatro do mundo.

Julieta Venegas surgiu assim para mim. Protegida pelo desconhecimento, mas não pelo anonimato. Como uma personagem de Shakespeare que cantasse de forma adocicada palavras de amor em espanhol, caiu em meu player um álbum seu.
Não conhecia. Não sabia que era Californiana criada no México. Que tinha uma irmã gêmea. Que era filha de fotógrafos. Que gravou com Marisa Monte e Lenine.  Que cursou teatro. Que às vezes envereda para o pop rock. Que já venceu o Grammy latino. Que já tinha um álbum MTV Unplugged. Que já vendeu mais de 5 milhões de discos pelo mundo.

E na verdade nada disso importava. De sua música e voz surgiram impressões próprias de Julietas. Extremadas.

Às vezes acho que fugiria com ela para Tihuana em um lampejo de loucura. Isso se uma mulher linda de 40 anos como ela me aceitasse é claro.

Outras vezes acho que ela nada mais é do que uma artista medíocre, com um repertório meloso e uma voz afinada. Nem tão bonita assim e mais de dez anos mais velha que eu...

Às vezes acho que quando sua boca se abre jorra lirismo, poesia e amor. Outras vezes acho que saem músicas bregas e datadas.

Não sei, mas fiquei cismado com esta Julieta. Mais do que com muitas outras.

Faz parte. Todos temos um lado que se impressiona fácil quando uma mulher canta palavras de amor. Mulheres se emocionam com as palavras, homens não resistem a situação...

Algo tão antigo quanto a lenda das sereias que arrastavam para o fundo do mar(e para a morte) marinheiros encantados com suas vozes e beleza.

Dias sim, dias nem tanto escuto Julieta Venegas. Hoje decidi escrever sobre ela e postar aqui. Amanhã posso estar arrependido de dar a ela este espaço e querer deletar o post.

Relações passionais como uma dose de cicuta e um punhal de amor no peito. Coisas de Julietas.




Cartola


“Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e "fui à vida", como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.

(Carlos Drummond de Andrade)

Não imagino como falar sobre Cartola sem recorrer à fluidez de um dos seus; gênios das artes, párias, convivas, mestres cada qual em sua universidade. Peço a licença poética ao poeta e utilizo sua veia de cronista para abrir este texto.

Carlos Drummond de Andrade escreveu uma bela crônica sobre Cartola para o Jornal do Brasil, texto publicado em 27 de novembro de 1980, três dias antes da morte do sambista que não resistindo a um câncer no estômago nos deixava aos 72 anos de idade.

Ler Cartola nas palavras de Drummond é para mim um deleite. Fã do escritor e do músico é impossível refrear a sensação de que a autoridade de Drummond é necessária para falar da grandeza de Cartola.

Angenor de Oliveira viveu uma vida errática e apesar de iniciar suas composições na década de 30, somente nos anos 70 conseguiu atingir sua fase áurea trazendo à luz “O Mundo é um Moinho”(no fim deste texto), “As Rosas Não falam”, “Acontece”, “Cordas de Aço” entre outras pérolas da música popular brasileira.
Em sua simplicidade, a música era para ele fluída, natural, sangue nas veias e ar nos pulmões, quase abdicou do sucesso(não da genialidade) ao desaparecer, literalmente, do cenário musical. Certamente entre um cafezinho e outro, entre uma cachaça e um cigarro continuava a criar sambas no seu pinho enquanto tirava o sustento de trabalhos braçais mal remunerados. Uma coisa é certa, existe um buraco negro na década de 50, aonde Cartola havia sido tragado, e como a Mangueira deve ter sido mais triste!

Em alguns momentos me sinto orgulhoso de minha profissão. Sempre tem um jornalista curioso em algum lugar e dizem que foi Sérgio Porto, conhecido como Stanislaw Ponte Preta, o sujeito feliz que pode se orgulhar de ter feito um bem imenso à música nacional ao encontrar e convencer Cartola, então lavador de carros, a voltar a compor e gravar.

Não sei da instrução de Cartola, se teve ensino médio ou fundamental correspondente a sua época, só sei que ler suas letras é como ler Drummond, um exercício de deleite e regozijo.

Todos que escrevem por hobby ou por paixão, por necessidade ou carreira sabem como é complexo o uso das palavras, como às vezes nos foge vernáculo e vocábulo e nada parece encaixar para tornar um bom texto em um texto especial. Imagine ter esse dom de forma espontânea como Garrincha driblar, Elis cantar ou Muhamed Ali lutar...Super-heróis com super poderes.

Segui palavras vivas que buscam meticulosamente seus lugares para despertarem emoções, assim é para mim, ler Cartola e ler Drummond. Pessoas capazes de imaginarem o mundo como moinhos, abismos cavados com os pés, rosas que roubam o perfume da mulher amada(no caso sua musa Dona Zica), de olhar o sentimento e pensar: “Acontece!”. Marcar um dia no futuro para abandonar a mulher impossível de rejeitar no dia de hoje.

Minha sincera homenagem aos 30 anos sem Cartola celebrados em novembro de 2010 e assim como abri este texto recorrendo ao brilhantismo de uma crônica de Drummond encerro com um pequeno trecho de uma de suas poesias mais famosas e que imediatamente me recordo sempre que imagino como se sentia Cartola com seu violão no colo: 

“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo...”

Não Canso de ouvir...
O Mundo é um Moinho

Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés




domingo, março 13, 2011

Aprendendo Política com Patativa do Assaré

"Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim"
(Millôr Fernandes)

"Repare que a minha vida
É deferente da sua. A sua rima pulida
Nasceu no salão da rua.
Já eu sou bem deferente,
Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte das obra da criação. 
Seu verso é uma mistura,
É um tá sarapaté,
Que quem tem pôca leitura
Lê, mais não sabe o que é.
Tem tanta coisa incantada,
Tanta deusa, tanta fada,
Tanto mistéro e condão
E ôtros negoço impossive.
Eu canto as coisa visive
Do meu querido sertão.


(Cante Lá que eu Canto Cá - Patativa do Assaré)


A todos nós eleitores que a cada pleito provamos na urna o efeito, muitas vezes catastrófico, do modelo democrático fica aqui uma lição do finado Sr. Patativa do Assaré.

Antes de começar vejamos nossa situação atual. Após ciclos infindáveis que renovam o poder público e nacional com eleições de dois em dois anos, o povo não se cansa de reclamar e abrir o chororô em todas as escalas, sejam elas federais, estaduais ou municipais. 

Ninguém explica como a tartaruga subiu no poste. Todos olham para ela indignados e exclamam: “Desce daí sua sem-vergonha!” 

Mas ninguém busca a escada para tirá-la de lá. Ninguém se organiza para um ato concreto - que seja derrubar o poste.

E assim se renova o ciclo quase que perene de eleger e reclamar até as próximas eleições.
Para quem não sabe, Antonio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, além de poeta, compositor, músico popular e improvisador, tomou para si uma das tarefas mais árduas que se pode conceber em solo tupiniquim: a de esclarecer o povo.

Nascido em Assaré no Ceará, Patativa padeceu da sina comum de tantos severinos de sobreviver da agricultura e ser explorado pelo coronelismo. Ficou cego de uma das vistas muito cedo o que parece ter lhe garantido um dom de ciência e de compreensão, quase uma clarividência, capaz de enxergar muito além da aridez do nordeste, criando versos e histórias e transmitindo através da oralidade lições de democracia, sociedade e convivência humana.

Para quem torce o nariz e trata com preconceito os versos de Antônio, vale saber que ninguém no meio acadêmico conseguiu até hoje dissecar de forma completa a vida e a obra deste poeta reconhecidamente talentoso. A oralidade,marca maior de seu estilo, não compromete a distribuição das rimas organizadas de forma intuitiva em moldes camonianos, muitas vezes em sonetos de rimas clássicas, outras em décimas e sextilhas nordestinas.

O poder imagético de sua prosa e verso é tão fabuloso quanto didático.

Imaginem a cena. Um boi zebu todo suado querendo fugir do sol se esconde à sombra de m grande juazeiro. Sem perceber, ao parar, coloca as quatro patas em cima de um formigueiro.

As formigas, indignadas com o disparate, ordenadamente começaram a revolução. Uma a uma escalando, picando e atacando foram contra o boi zebu, que relutou em sair da sombra que tanto lhe protegia. Ao ver que não podia vencer as formigas, porque eram numerosas demais, abandonou a sombra do juazeiro derrotado.

Moral da história ? Vamos Minhas Camaradas Esse Boi Zebu é só um !

Contra  “boi-zebu-senador”,  “boi-zebu-prefeito” ou “boi-zebu-deputado”, mamando e descansando na sombra do imenso juazeiro que pode ser nosso país, estado ou município a lição é uma só.
Lição de democracia pela base. Muitos escolhem um, porque muitos são mais do que um. O poder está com a massa e não com a minoria, basta mobilizar e corrigir.

O grito da ave Patativa ecoava no mais árduo terreno político do país. O nordeste . E lá sem se intimidar as poesias e rimas viraram livros, cordéis, canções e atingiram o povo sofrido que aprendia um pouco, ao repetir sem saber ler, as rimas de “O Boi Zebu e as Formigas”, “Eu quero”, “O Operário e o Agregado”, “A Terra é Natura”, “Nordestino Sim, Nordestinado Não” e tantas outras.
Por isso a poesia de Patativa avançava em várias frentes.

Ensinava o povo a votar:
“Quero um chefe brasileiro /Fiel, firme e justiceiro /Capaz de nos proteger, /Que do campo até a rua /O povo todo possua /O direito de viver.”

A ser patriota:
“Eu quero o agregado isento/ Do terrível sofrimento/ Do maldito cativeiro,/ Quero ver o meu pais /Rico, ditoso e feliz / Livre do jugo estrangeiro.”

A separar religião de política:
“Não é Deus que nos castiga,/ Nem é a seca que obriga / Sofrermos dura sentença,/ Não somos nordestinados, / Nós somos injustiçados / Tratados com indiferença...
...Mas não é o Pai Celeste/ Que faz sair do Nordeste/ Legiões de retirantes, / Os grandes martírios seus / Não é permissão de Deus,/ É culpa dos governantes.”

E em último caso a se rebelar e exigir justiça contra o governante corrupto eleito.
“Com a feição de guerrêra /Uma formiga animada / Gritou para as companhêra:/ Vamo minhas camarada /Acaba com os capricho /Deste ignorante bicho/ Com a nossa força comum /Defendendo o formiguêro/ Nos somos muitos miêro /E este zebu é só um.”

Então formigaiada antes de reclamar da rotatória municipal, do presidente do senado, do deputado corrupto o ideal é todos nós lermos e ouvirmos um pouco do chiar de Patativa, e assim quem sabe, mobilizar e resolver alguma coisa. Seja nas próximas eleições ou ainda neste mandato não podemos esquecer:
“- Este Zebu é só um”




domingo, março 06, 2011

Um Brasil sem Brasileiros

Texto publicado originalmente em 12 de março de 2009
     
Brasil!
Meu Brasil Brasileiro
Mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor...

(Ary Barrosso)

Recentemente parei para analisar com mais calma as linhas deste espaço reservado a cultura, e sinceramente... Fiquei com raiva de quem escreve!
            Cadê a musica nacional ? Cinema Nacional ? Literatura nacional ? Sem intenção acabei engrossando a lista daqueles que desprezam a rica cultura tupiniquim e exaltam a produção estrangeira. Está por aqui mas em minoria em relação aos colegas além fronteira.
Não pretendo agora me tornar um patriota extremista, longe disso. Não vou ignorar que muita coisa de qualidade surge lá fora e tem que ser mostrada, mas o que me incomoda é que fica a sensação que enxergamos a grama do vizinho sempre mais verde.
            Vivemos uma época, onde principalmente a juventude cosmopolita, não conhece a cultura brasileira. Quando assistimos no noticiário neonazistas espancando um grupo de garotos emocore, devemos nos perguntar: aonde surgiu isso? Não criamos a suástica nem seus preconceitos e ainda por cima importamos um “movimento” que virou febre entre nossos adolescentes, que agora se vestem de preto e falam sobre rock sensível, sem saber as origens disso tudo. No Brasil colhemos os frutos do quintal alheio.
            E isso não é de agora. Com exceção talvez da Bossa Nova, da Tropicália e da Jovem Guarda, nenhum grande movimento nacional se tornou tão popular quanto os internacionais que aqui desembarcaram. O punk, o grunge, o metal, todos esses movimentos de DNA estrangeiro já tiveram seus grandes momentos em terras brasileiras, e muitos deles continuam a manter alguns fiéis seguidores espalhados aqui e ali.
            O mais preocupante é que as principais “vítimas” desse processo de internacionalização em terras nacionais são aqueles que teoricamente tem mais acesso a cultura. Os moradores das grandes capitais, ou das regiões Sul e Sudeste, as classes A e B, são os primeiros a adotar novos modismos e firulas em língua estrangeira, a colocar entre os mais vendidos o livro do escritor inglês fulano e a ouvir no último o som techno-eletro-dance dos franceses. Se um dia a guerra cultural apertar temos ainda alguns abrigos seguros como o Norte e o Nordeste que ainda resistem de certa forma aos estrangeirismos à base de muito Forró, Axé e Baião. Talvez a Lapa e alguns redutos do samba.
            Ás vezes, esquecemos de algumas referências indiscutíveis que possuímos. Porque supervalorizamos Bob Dylan, se temos Chico Buarque de Hollanda? Um trovador tão competente quanto; ainda em atividade, com uma produção musical indiscutível, ótimas peças de teatro e quatro livros lançados.
            E por falar em livro, por quê é chato ler Machado de Assis e é tão bom ler Shakespeare? Alguém por aí já ouviu falar de João Antônio? Enquanto Jack Kerouac viaja pelos subúrbios dos E.U.A em “On The Road”, João Antônio fala sobre nossa ralé, guardadores de carros, viradores, prostitutas, leões-de-chácara, e jogadores de sinuca em uma prosa rica e elaborada.
            Ah! E ainda tem aqueles que se recusam a enxergar o óbvio! Por que a bonitinha roqueira que hoje se destaca entre os jovens “indie”(mais uma forma estrangeira de falar “independente), fala tanto em inglês e canta lendas do folk rock e southern rock ?
Simples porque não sabe ou se recusa a entender que aqui tivemos, por exemplo, Sá, Rodrix e Guarabira, que faziam por essas bandas o mesmo que Crosby, Still and Nash faziam lá fora. Pink Floyd, Emerson Lake and Palmer, e tantas outras bandas de talento indiscutível faziam experimentações e criavam um rock tão psicodélico quanto os Mutantes e o Secos e Molhados. Se os ingleses tem o chamado Brit-Pop, temos o suburbano Mangue-Beat.
            Não vou falar de Bossa Nova, que é covardia. Todos sabem que até os gringos se ajoelharam ao violão de João Gilberto, ao Piano de Jobim, a bateria de Milton Banana e a poesia de Vinícius.
            E o cinema ? Claro muitos cinéfilos falam de boca cheia de Rosselini, Pasolini, Truffaut e esquecem Glauber Rocha. Assista “Deus e o Diabo na Terra do Sol” para ver uma aula de cinema sem recursos.

            Alguns brasileiros desenvolveram também o hábito de serem preconceituosos com a produção nacional. Muitos torcem o nariz para música sertaneja raiz, baião, axé, pagode e tantos outros gêneros que não são “cool” o bastante para a galera que houve emocore, rock e pop. Outros se entregam ao “cinema-pipoca-acéfalo-sem conteúdo”, mas cheio de efeitos especiais, em detrimento das produções nacionais que obviamente se apresentam mais modestas e sem as parafernalhas de Hollywood. Perderam nos últimos anos, por exemplo, os ótimos “Amarelo Manga”, “O Homem que Copiava”, “O Cheiro do Ralo”, “Cinema,Urubus e Aspirinas”  entre outros.
            Por isso precisamos que os brasileiros salvem o Brasil. Que tenham orgulho de Tião Carreiro, um monstro da viola que inventou a música sertaneja que conhecemos hoje. Que lembrem de Glauber Rocha, de Machado de Assis e os respeitem, que os indiquem aos seus melhores amigos. Precisamos de novos Gonzagas e Buarques na música, escritores como Lima Barreto, poetas como Manuel Bandeira, uma nova safra para encher de orgulho o brasileiro desmotivado que olha para fora quando pensa em cultura. Não podemos continuar vivendo no Brasil sem sermos brasileiros em primeiro lugar.
            Encerro com a licença poética de Vinicíus. A bênção Cartola, Pixinguinha, Noel. A bênção Jorge Amado, Graciliano Ramos e Mario Quintana. A benção Nelson Pereira dos Santos, Anselmo Duarte, Fernando Meirelles e Walter Salles. Saravá ! A benção que eu vou partir !

A Morte de Bob Dylan

 Texto publicado originalmente em 31 janeiro de 2009


The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.

(The Times They are Changing, Bob Dylan)






Ao olhar descrente para a produção musical atual, sem forma ou conteúdo e sobrevivendo aos trancos com meia dúzia de talentos que produzem um disco a cada seis anos, imagino, com certo pieguismo admito, a vida que não vivi nas décadas passadas. Décadas onde grandes artistas surgiam em pencas e gravavam dois álbuns por ano, com medo que a próxima guerra ou revolução destruísse o mundo. Décadas onde nasceram ídolos mortais que duram até hoje como referência sem serem substituídos ou destronados por gerações e mais gerações de músicos que jogaram a toalha e gritaram: Desisto!

O mito é eterno meus amigos, mas a carne é mortal. A cada dia assistimos ,pouco a pouco, os “reis” de nosso tempo morrerem sem um herdeiro direto para seu trono. Esse súbito amargor me fez refletir esta semana sobre o dia em que o mundo da música amanhecerá diferente, usando o mais cafona dos clichês. Para mim, este dia seria assim.

Hoje sexta-feira dia 6 de fevereiro de 2015 morre a música norte-americana.

Nascido longe de onde deveria, se mudou para a rua muito jovem onde foi adotado por Muddy Waters que o ensinou como não cantar suas músicas. Atravessou os Estados Unidos e leu On the Road, antes de ser escrito por Jack Kerouac. Passou a tocar tamborim em 1963, o que lhe rendeu o apelido de Mr. Tambourine Man.

Uma fixação crescente pelo circo fez com que se tornasse mágico criando o truque de cantar com uma gaita na boca.

Cantou Blowing in The Wind.

Compôs mais de 800 bandas e 38 estilos.

Não criou nenhuma música sozinho. Wood Guthrie passou a morar com ele no início de sua carreira dividindo o lado esquerdo de seu cérebro com mais 40 músicos desconhecidos de Minesotta.

Liderou um motim ao explodir o Festival Folk de Newport em 25 de julho de 1965, usando apenas uma guitarra elétrica. Na Highway 61 foi chamado de Judas, por uma pitonisa que percebeu que a salvação dependia de sua traição aos puritanismos desplugados da época.

Imaginou tão forte uma voz feminina para cantar suas composições que deu vida a uma cantora imaginária chamada Joan Baez, que até hoje aparece em alucinações coletivas tocando um violão à capela. Em 1966 sofreu uma tentativa de assassinato, quando um acidente de moto em Desolation Road, impediu que sozinho vencesse os 4 de Liverpool na Guerra Fria entre E.U.A e U.K. , que dividia a hegêmonia da música mundial na época.

Reuniu um conjunto de músicos que ficou conhecido como "The Band", neologismo que passou a ser sinônimo de grupo musical.

Casou-se todas as vezes que podia e se divorciou o mínimo possível. Converteu-se ao cristianismo em 1977 confundindo os fiéis que o seguiam. Em 1981 abandona o gospel e é reconvertido a música. Volta a tocar em bandas junto ao Grateful Dead e ao Traveling Wilburys trazendo a tona antigos vícios.

Na década de 90 ao comemorar 30 anos de carreira volta a usar folk, country e outros analgésicos que diminuíam a dor de cabeça do mundo. A partir de 2000 sua carreira volta ao topo das paradas. Viaja no cinema de Scorcese e expõe 174 aquarelas pintadas em 1994. Foi internado semana passada e lutou contra o vício crônico da composição que manteve até suas horas finais. Robert Allen Zimermman morreu aos 74 anos , sem que as enfermeiras reconhecessem seu nome no prontuário.

No enterro, Mick Jagger cantou Like a Rolling Stone para uma multidão comovida.

terça-feira, novembro 17, 2009

Em defesa do Ecletismo


Boa noite amigos leitores. Sei que há tempos não escrevo aqui e isso se deve a uma pequena confusão minha e do Japa na ordem de publicação e, admito, a um esquecimento meu há algumas semanas. Também tenho que confessar que não ando lendo ou assistindo, ou mesmo ouvindo, algo que possa considerar relevante.


No entanto, li recentemente um texto no Blog da Luciana Sabbag sobre Edith Piaf e, nos comentários, uma crítica aos que se dizem ecléticos. Explico. Luciana escreve sobre a intérprete francesa e se diz eclética, citando outros artistas que também gosta de ouvir. Nos comentários, uma senhorita afirma que os ecléticos são confusos e dá a entender que gostar do clássico é mais adequado do que procurar boas coisas para ouvir em todos os estilos.


Bom, pelo que já foi publicado nesse blog, já deu para perceber que tanto eu quanto o Japa somos ecléticos. E por isso venho em defesa da nossa classe.


Sou da opinião de que em todo estilo musical é possível obter prazer. E é isso que busco na música: prazer. Algumas canções podem não ser de um primor técnico, porém sua carga emocional ou a lembrança a que ela nos remete valem o ouvido indulgente.


Comecei, há muitos anos, gostando dos clássicos. Minha mãe costumava ouvir uma fita cassete dos “Concertos Internacionais” e aquilo era maravilhoso. Beethoven, Mozart, Strauss, Wagner. Houve também uma fase em que os rádios lá de casa tocavam Sinatra e Nat King Cole. Outro que sempre esteve presente foi o rei Roberto. Cauby, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Ney Matogrosso, Elis Regina, tantos nomes. Os sertanejos passaram por lá, igualmente: João Mineiro e Marciano, Tião Carreiro e Pardinho, Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó etc etc etc.


Não sei se vocês estão entendendo aonde quero chegar. O ponto é que essas músicas todas me acompanham desde muito cedo, e trazem memórias das quais é muito bom lembrar. Desde o Roberto Carlos nas viagens para ver a família, eu pequeno e passando mal no carro (sempre vomitava), até Strauss e suas melodias fortes que me enchiam o peito com uma vontade louca de desafiar minha mãe e ir brincar lá fora a noite.


Com o tempo, fui conhecendo tantas outras coisas e tantas outras memórias foram sendo ligadas a novas músicas. O Jazz que me dá uma nostalgia de não sei quê, ou o Bolero de Ravel que ouvi a Osesp tocar na cidade de Bauru, onde fui tão feliz na faculdade. Até mesmo o pagode de fim de semana, nos churrascos da vida, com os irmãos/amigos que fiz durantes o meu curso de jornalismo. Chego a admitir, inclusive, que o funk das festas de repúblicas, com as meninas dançando e todo mundo louco acompanhando, me traz boas lembranças.


Sertanejo universitário e festas de peão. Lembranças de quando eu andava a cavalo e sentia o vento e o cheiro do mato tocando gado em Santa Cruz do Rio Pardo. O rock do Iron Maiden me iniciando no mundo dos jovens e deixando de lado o tiozão dentro do garoto de 15 anos. Os Beatles e uma apresentação memorável nas salas da UNESP Bauru. Gershwin e as ruas de Nova Iorque – que eu nunca visitei.


Não... Não são só lembranças. São também vontades, desejos, até mesmo viagens... Viagens em espírito, por meio da música, a lugares que talvez eu jamais conheça, ou que tenho a ânsia de conhecer. O hinos celtas da Escócia e Irlanda me colocam mais perto do meu sonho de conhecer as ruínas dos círculos de pedra do povo antigo. O pagode que eu ouço, não mais em um churrasco com os amigos, me deixa mais próximo deles novamente, mesmo que por alguns minutos. O Jazz me traz o cheiro, o gosto, a vontade, de uma época que não vivi.


Sim, sou eclético. Sou complicado também. Sou humano também. Bebo cerveja, cachaça, refrigerante vagabundo, vinho francês e uísque 12 anos. A minha busca é por prazer. Ouço música por isso. Não é me restringir a uma coisa, mas estar disposto a achar algo bom em todo lugar.


Dá trabalho, eu sei. Mas vale a pena...


quinta-feira, outubro 08, 2009

Playing with My Friends: Bennett Sings the Blues - Tony Bennett


Boa noite, queridos leitores. Dessa vez estou atrasado. Culpa do Japa.

Hoje pensei em falar sobre a carreira de Tonny Bennett, um dos meus cantores favoritos. Porém, optei por deixar isso para depois. Trabalharei melhor a idéia e tentarei usar uma idéia interessante na composição. Por hora, me restringirei a um único álbum.

Playing with My Friends foi gravado em 2001 e contou com participações de músicos de peso. Um exemplo: B.B. King. Querem mais? Que tal Ray Charles!? As 15 canções do álbum têm releituras muito boas e é refrescante ver Bennett, no alto de uma carreira cinquentenária e coroada por 15 Grammys, cantar Stormy Weather ao lado de Natalie Cole.

Só para contextualizar: Tony Bennet é ítalo-americano, novaiorquino do Queens, e é considerado a segunda maior voz do século XX na música popular americana, além de merecer elogios da própria primeira voz, The Voice, Frank Sinatra: "Ele (Bennett) é meu ídolo". Ele tem a firme convicção que apenas o talento não faz um bom músico, e sim o estudo e a dedicação. Suas paixões são a música e a pintura.

Contextualizados? Sigamos...

Os duetos contidos em Playing with My Friends ainda revisitam Alright, Okay, You Win, blues alegre e convidativo que conquistou os americanos na década de 70 (na voz de Joe Willians). Diana Krall empresta seu possante vocal para a composição rouca de Bennett.

Blues in the Night é um solo, mas funciona como um afirmação. Ela é a terceira canção do álbum, e é precedida por duetos. Nesse instante pode surgir a dúvida: será que Tony ainda está com essa "bola toda" ou são as parcerias que seguram a coisa toda? Como disse, Blues in the Night significa que, apesar da idade (75 na época), Tony Bennett entrou o século XXI ainda sendo uma das maiores vozes da música: o cantor brinca com a voz e entra no espírito blues.

Para os menos informados, ele é o maior intérprete de jazz vivo, já que Sinatra morreu. E sua especialidade é música popular americana. Uma olhada na sua discografia e nos seus maiores sucessos comprova tal fato. O blues não é uma constante. Mais um diferencial que valoriza Playing with My Friends.

Ray Charles, com sua voz inexplicável (não acho adjetivos adequados. Perdão, sou fã), entra em Evenin' após um leve gemido, um "uuuhuuum", um detalhe que entrega o dueto. Você percebe que é Charles e pensa: "não tem como ser ruim". E não é.

Caso o típo de blues que você tem em mente é aquele da guitarra elétrica do Yardbirds ou de Clapton, aprenda que existem outras "pegadas" no estilo. A batida certa do violão e do baixo acústico, um TUUUUM TUUUM TUM, é que marca o blues. Mas fique feliz! B.B. King entra com guitarra e tudo em Let the Good Time Roll. É uma música que passa uma ótima sensação. É possível sentir a química entre os dois cantores. Ouvi há não muito tempo que é possível saber se alguém está sorrindo apenas pela sua voz, mesmo sem ver o rosto; é o caso.

Não menos importante é New York State of Mind, com Billy Joel. O balanço que a voz trinada de Joel empresta à música cai muito bem com o piano do maestro Ralph Sharon. E é de se pensar que New York seja mesmo um estado de espírito, tão rica, tão cheia de arte, de vida, de gente diferente; ela é mesmo um estado libertário de espírito. Mas estou divagando...

De qualquer modo, fica a dica para esse excelente CD. Infelizmente é uma dica que poucos seguirão, pois pouca gente ainda se dá ao luxo de conhecer Bennet, Sinatra, enfim, os grandes de antigamente, que soam como coisa de vô, coisa de pai e de mãe. Música de qualidade não tem idade, é atemporal. E só para constar: em 1994, Bennett cantou no MTV Music Awards com o Red Hot Chilli Peppers; em seguida foi convidado a gravar o MTV Unplugged; em 1995 ganhou o Grammy de melhor álbum do ano com o Unplugged.

Com certeza não foram só nossos pais e avós que o fizeram ganhar o prêmio. Vençam preconceitos e ouçam coisas diferentes. Hoje minha dica é Playing with My Friends. Boa noite!


1. "Alright, Okay, You Win" (duet with Diana Krall)
2. "Blue and Sentimental" (duet with Kay Starr)
3. "Blues in the Night"
4. "Don't Cry Baby"
5. "Evenin" (duet with Ray Charles)
6. "Everyday" (duet with Stevie Wonder)
7. "Good Morning Heartache" (duet with Sheryl Crow)
8. "I Gotta Right to Sing the Blues" (duet with Bonnie Raitt)
9. "Keep the Faith, Baby" (duet with k d lang)
10. "Let the Good Times Roll" (duet with B.B King)
11. "New York State of Mind" (duet with Billy Joel)
12. "Old Count Basie Is Gone"
13. "Playin' With My Friends"
14. "Stormy Weather" (duet with Natalie Cole)
15. "Undecided Blues"

quarta-feira, setembro 30, 2009

Verônica Sabino, Ana Cañas e Tiê

Cansado de ler aqui e ali sobre nomes que nunca tinha ouvido cantar decidi dedicar algumas horas de meu tempo a audição de alguns talentos promissores da MPB. Particularmente o que me chamou atenção foi a nova geração feminina que tem despertado elogios rasgados tanto em território nacional quanto em turnês pela Europa e pelos Estados Unidos.

Muitos nomes soaram estranhamente familiares e decidi iniciar as sessões com a seguinte escalação:

Vanessa da Mata
Céu
Verônica Sabino
Ana Cañas

Posteriormente somei ao grupo a cantora Tiê por indicação de um amigo.
Iniciei a audição nesta ordem, comecei por Vanessa da Mata, pois tinha lido uma ótima matéria na revista Rolling Stones e fiquei curioso.

Há duas semanas postei sobre Vanessa da Mata e Céu. Segue abaixo o restante de minhas impressões pessoais sobre as cantoras.

Verônica Sabino – Que Nega é Essa ?





A surpresa desta linha de pré-selecionadas com a marca de “novos talentos” foi a cantora Verônica Sabino. Contando com a ignorância deste que desconhecia a trajetória das 5 cinco cantoras analisadas, digamos que uma veterana se infiltrou sem ser vista e mesmo com uma carreira iniciada em 1985, trouxe seu mais novo álbum para este espaço.

A grande verdade é que meu objetivo em criar esse post era oferecer impressões reais colhidas de minha audição inicial sobre as cantoras, coloquei como meta escrever os textos sem qualquer contato com sites que oferecessem críticas e análises para dessa forma tentar transcrever uma opinião sincera, verdadeira e original.

O fato é que Verônica está aqui e apesar de já ter um certo tempo de estrada foi a apenas um pouco mais de um ano que ouvi seu nome pela primeira vez, salvo engano em uma matéria que falava sobre vozes da MPB que mereciam destaque e que colocaram seu nome em um balaio cheio de revelações - o que pode ter gerado minha confusão inicial.

A audição de “Que Nega é Essa” realmente revelou uma certa familiaridade com a geração anterior de sons nacionais; com arranjos mais discretos e menos inventivos a qualidade do timbre afinado de Verônica se destaca de uma forma quase premeditada.

O álbum em si é uma lição de repertório. Pode não ser original, mas certamente é infalível ao conquistar o público do seguimento.

Têm clássicos como “Todo Sentimento” de Chico Buarque, apelo pop com “Quase Um Segundo” de Herbert Viana, peso em “Blues em Braile” de Zeca Baleiro e a malemolência de Jorge Ben na música que dá nome ao trabalho.

Nas composições de autoria de Sabino destaque para Rewind, letra bacana que me agradou apesar de incorporar palavras do inglês, o que geralmente em letras sérias pode ter um efeito ridículo. Em diversos momentos lembrei de forma clara e nítida de Adriana Calcanhoto, não somente na canção “Tardes” sugada de seu repertório e interpretada sob o mesmo DNA, mas também em “Agora”, “Túnel do Tempo” e “Invento”.

A vantagem da experiência de Verônica fica clara em relação às debutantes por uma simples questão de quantidade de canções diferenciadas. Por poder “reciclar” músicas de outros álbuns esse “Que Nega é Essa” traz uma trinca pegajosa que você não encontra nos outros trabalhos analisados: 
“Longe de Você” em dueto com Vitor Hammill, “Rosa que Me Encanta” em dueto com Rodrigo Maranhão e “Não se afaste de Mim” fizeram com que sem perceber eu repetisse diversas vezes sua audição.

Sem dúvida na caixinha de lápis de cor Verônica seria marrom.

Por quê ?

Inicialmente parece ser uma cor sem personalidade, que não diz lá muita coisa, sem nenhum tipo de protagonismo implícito. Assim como a cantora estava “escondida” em meio às demais, o marrom rouba a cena sem ser esperado e está sempre presente mesmo que não receba os holofotes do glamour. Na minha caixinha de lápis de cor da infância nunca liguei muito para a cor marrom, mas sem perceber era uma das cores que mais usava. O telhado era marrom, a montanha era marrom, o tronco da arvore era marrom, o cachorro era marrom...quando percebia o lápis tinha acabado antes dos outros.

Não passa nem perto de ser genial, mas é cotidiano e fácil fácil de se ouvir.

Chocolate, pó de café, feijão... coisas indispensáveis para o brasileiro em seu dia-a-dia, cheias de sabor, cheiro e insuportavelmente marrons.

Ana Cañas – Amor e Caos




“A Ana é azeda
Mas é doce quando é doce
A Ana é azeda
Mas muito doce quando é doce”

E foi assim que o álbum “Amor e Caos” de Ana Cañas debutou no meu mídia player antecipando um pouco das impressões sobre seu trabalho.

Ana é doce diabética na interpretação de “Coração Vagabundo” de Caetano Veloso, que perdeu ginga, mas ganhou um tom de sussurro suplicante à beira da ternura. Doce e contemplativa na medida em “Para Todas as Coisas”.

Cañas não chega a ser azeda mas mostra uma faceta muito mais interessante em canções menos emotivas e mais complexas, pelo simples conceito de antônimos entre sabores; vai ao oposto de doce na versão de “Rainy Day Woman” de Bob Dylan e “Vacina na Veia” que muda constantemente o tom e o ritmo para alertar “vacina na veia para não cair na teia”.

O suingue de “Mandiga” e de “Super Mulher”, de Jorge Mautner, deixam evidente a interessante variação de repertório escolhido pela cantora que entrega a cada estilo uma interpretação diferente com tonalidades vocais variantes e também gritinhos, sussurros e gemidos que complementam a “encenação”.

Cañas é formada em artes cênicas, mas mudou de idéia no meio do caminho, abandonou o teatro e iniciou carreira musical como intérprete de jazz nos bares da vida, “Amor e Caos” parece trazer um pouco dessa inquietude de contradições de antagonismos.

Traiçoeira em “Devolve Moço” :

“Existe aqui uma mulher
Uma bruxa, uma princesa,uma diva
Que beleza”

A cor que melhor definiria Ana Cañas seria o azul. Capaz de variar em diversos tons e composições presentes em nosso cotidiano do sombrio azul escuro, ao alegre azul de um céu de verão. Masculina a cor escancara na porta do quarto o sexo do bebê, se repetindo de forma universal como indicativo de índice determinante de “banheiro masculino”; mesmo assim a cor pode se dar ao luxo de ser tão feminina e sensual em suas variantes, como no azul da calcinha pudica da lolita.

Nos comerciais aonde a idéia é mostrar um ambiente feliz o azul é indispensável, no céu, no mar ou nas roupas...sempre está lá.

Na fossa, na tristeza é sinônimo de depressão em linguagem universal. Nada melhor que ouvir um “blues” acompanhado de um copo de uísque.

O azul é contraste e contraponto por excelência, a cor do mar que pode ser sereno ou bravio, adjetivo pontual de elogio ou crítica. Ana Cañas iniciou uma trajetória interessante em seu primeiro trabalho, mas às vezes oscilante demais em suas nuances, o que pode desagradar aos menos acostumados com a maresia .

Tié – Sweet Jardim






Tiê chegou assim de última hora, mas digo que com um quê de profecia bíblica a cantora atingiu despretensiosamente o lugar de favorita entre minhas recentes audições.

A mais feminina das novas vozes que passaram algum tempo comigo nessas últimas semanas é diferente da sensualidade de Vanessa da Mata, mulher força, ou do charme inovador de Céu, mulher sofisticação.

O timbre de voz e a maneira com que Tiê interpreta suas belas canções é a alma feminina essencial, sensível, delicada, por vezes infantil ou indefesa. Sem baboseiras feministas de “cantar grosso” alguma mensagem de superação comum à personagens centrais de novelas platinadas, a cantora entrega algumas gemas originais como “Passarinho”, “5° Andar” e “Te Valorizo” assumindo de forma corajosa os sentimentos mais puros de dependência, de carinho e entrega; sem a arrogância pretensiosa dos repertórios de Anas Carolinas e Marias Ritas que colocam a mulher nas relações como o rambo metralhando homens sem caráter.

È comum em nossa sociedade atual algumas mulheres confundirem as reais intenções do feminismo, criando na realidade um machismo às avessas. O lugar da mulher na sociedade deve ser garantido com os mesmos direitos e deveres dos homens e como isso nem sempre é assim concordo que deve haver alguma mobilização a respeito.

O problema é quando esse conflito homem/mulher extravasa os limites e propõe uma relação de antagonismo e não de dependência. Homens ou mulheres somos dependentes um do outro e ponto final. Tié não só aceita isso como resgata o charme da mulher MPB suplantada recentemente pela feminista MPB.

A sofisticação charmosa da cantora que canta em francês, inglês e português, com a mesma desenvoltura, me fez lembrar de outras audições, sem necessariamente soar parecido. De Astrud Gilberto à Katie Melua me recordei de todas as vozes suaves e femininas que adoçam os ouvidos de forma terna e insinuante.

Outro ponto positivo é que as letras desse “Sweet Jardim” são na maior parte de sua autoria. Realmente um achado.

Cansei de ouvir a canção “Assinado Eu” e não lembro de nenhuma música de “pé na bunda” mais terna e sensível. Uma lição de força feminina delicada como uma pétala como deve ser.

A Cor de Tiê?

Rosa ! O mais superlativo dos adjetivos cromáticos para uma mulher. As outras que morram de inveja.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Vanessa da Mata e Céu


Cansado de ler aqui e ali sobre nomes que nunca tinha ouvido cantar decidi dedicar algumas horas de meu tempo a audição de alguns talentos promissores
da MPB. Particularmente o que me chamou atenção foi a nova geração feminina que tem despertado elogios rasgados tanto em território nacional quanto em turnês pela Europa e pelos Estados Unidos.

Muitos nomes soaram estranhamente familiares e decidi iniciar as sessões com a seguinte escalação:

Vanessa da Mata


Céu


Verônica Sabino


Ana Cañas


Posteriormente somei ao grupo a cantora Tiê por indicação de um amigo. Iniciei a audição nesta ordem, comecei por Vanessa da Mata, pois tinha lido uma ótima matéria na revista Rolling Stones e fiquei curioso. Em seguida ouvi a cantora Céu, que muitos tinham me indicado como um fenômeno da MPB; grande foi minha surpresa quando percebi que não se tratava exatamente de música “popular” tão pouco “brasileira”.

Postarei hoje minhas primeiras audições e daqui 15 dias as próximas.


Vanessa da Mata – Sons Diversos/ Multishow ao Vivo

Um início promissor e confuso. Primeiro cheguei a conclusão que conhecia a cantora por causa do hit pegajoso “Boa Sorte” que ficou gastando nas FMs a algum tempo atrás, mas decidi ignorar esse detalhe e avançar como se estivesse em território totalmente desconhecido.

Duas sensações iniciais me incomodaram na audição de Vanessa da Mata. A primeira era de estar ouvindo Maria Rita nas notas altas e abertas e Marisa Monte nos sussurros.
Fechando os olhos tive dificuldade em criar uma identidade imediata para minha nova companheira de audição. A segunda sensação que me incomodou foi a impressão de que apesar das semelhanças algo estava diferente e nenhum adjetivo surgia para classificar, não exatamente a voz, mas a maneira de cantar de Vanessa.

Trabalhando com rádio à quase dois anos aprendi na prática que a expressão facial transparece na sonoridade das palavras e que dizer algo rindo é completamente diferente do que dizer algo de
sobrancelhas cerradas de raiva - e no cantar isso é semelhante.

Achei particular a forma imagética com que a voz de Vanessa se projetava. Via claramente seus gestos, sorrisos, caras e bocas que provavelmente dirigia ao seu público, sem nunca ter visto uma
apresentação dela nos palcos. O primeiro adjetivo que me surgiu na cabeça foi vermelho. Sem saber tinha criado o padrão para analisar as próximas cantoras. Ao meu ver as cores dizem muito sem a necessidade exata de uma definição. O vermelho é a cor da fúria, da paixão, do calor, das sensações e energias sexuais, do ímpeto. Talvez a única cor “quente” na real definição do termo. Depois desse rompante imagético os adjetivos começaram a surgir.

Vanessa canta de forma sensual, latina, como se as palavras escorregassem até a ponta da língua antes de serem arremessadas ao ar.
Não vi originalidade no repertório, mas pequenas pérolas que brilham pela interpretação apaixonada de Vanessa. “Pirraça”, “Ai, ai, ai”, e “Fugiu com a novela” são bons momentos.

Gostei particularmente das versões para “História de uma Gata” e para o baiano “Não Me Deixe Só”. “As Rosas Não Falam” de Noel também vale ser notada apesar do desgaste natural da música revisitada por quase todo mundo. Vanessa é vermelho, às vezes um jantar romântico no Panamá, outras um alaranjado pôr-do-sol, não exatamente um rompante furioso de um incêndio, mas um calorzinho vindo daquela fogueira da beira do mar que tinge de tons vermelhos a água salgada.

Mas lembrei que não gosto tanto assim de praia.


Céu – Céu/ Vagarosa

Quando iniciei a audição de Céu com a trinca “Cangote”, “Comadi” e “Nascente” admito que fiquei irritado e quase pulei para a cantora seguinte.

Sua voz era muito afinada - mas não me pareceu particularmente um destaque.
O que me causou um grande desconforto foram os arranjos instrumentais e os overdubs, algumas influências confusas de sons, de vozes duplicadas, de elementos jazzísticos somados a efeitos eletrônicos improváveis. - Não é MPB !- cheguei a sentenciar em certo ponto.

O conceito de “música popular brasileira” não podia ser aplicado ao som deturpado cheio de elementos estrangeiros e sonoridad
es que hora me lembravam a sofisticação de um bar Nova Yorkino, hora o charme esfumaçado da noite parisiense.

Depois que passei desse primeiro estágio da audição comecei a ser mais complacente com a voz da bela Céu.


Encontrei sobre as camadas exageradas de sons e instrumentos uma entrega interessante de conteúdo. Com um pouco de boa vontade, e sem ligar o som ao rótulo de MPB da embalagem, podemos ver as experimentações de Céu como algo inovador, próximo de um acid jazz ou de um “MPB progressivo” se é que isso é possível.
Tirando os sintetizados e os metais desnecessários a voz de Céu emociona pela palidez e chega a sumir em algumas canções; quase rouca a performance atinge em alguns bons momentos algo nacional muito semelhante a requintadas intérpretes internacionais.

Não pude deixar de notar uma aura de Madeleine Peiroux sondando as canções de Céu. “Concrete Jungle” é legitimamente internacional. Existem alguns suspiros de MPB como em “O ronco da Cuíca” e “Vira-Lata”, mas nada que afaste da cantora sua cara de sofisticação internacional.


Diferente do óbvio, Céu não é azul, mas ocre.
Uma cor oscilante, um quase sem tom, capaz de ser visto e apreciado em diversas paisagens - mas sem um lugar comum, desapegado das raízes das cores primárias. Uma cor predileta para poucos, mas que traz o charme exótico do não convencional.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Grand Funk Railroad

Boa noite, leitor ocasional deste blog.


A idéia para o texto de hoje é ser descompromissado. Não vou ficar exaltando aspectos técnicos ou enchendo você com informações que podem ser encontradas facilmente no Google.


Se você é um fã dessa banda, vá a um site especializado. Se você procura dicas e opiniões sobre boa música, aí sim você estará no lugar certo.


O nome homenageia uma estrada de ferro importante nos Estados Unidos, mas com certeza o som do Grand Funk Railroad se tornou muito mais famoso! Banda criada nos idos anos sessenta, em 1969 para ser exato, li que a crítica nunca foi muito positiva com relação ao grupo, alegando que os integrantes não eram músicos suficientemente bons e que o produtor era egocêntrico. O público, ao contrário, adorava!


Primeiro, deixo claro que não sou músico. Sou jovem demais e talvez não devesse ficar dando opiniões por aí, como uma psedo-crítico. Porém, não me considero um mau ouvinte e acho que tenho bom ouvido para música. Não consigo ouvir o som do Grand Funk, com seus trinta anos de idade, e pensar que seja ruim.


Pode ser aquela sensação que vive rondando as pessoas da minha geração, dizendo que o passado sempre foi mais bonito e glorioso, que nascemos na época errada e que tudo era tão melhor antes do que agora. Algo assim. Não sei.

Apenas me peguei fuçando CDs de MP3 e achei um álbum do Grand Funk – coletânea, por sinal – ao qual decidi dar a chance de uma audição mais aprofundada. O nobre amigo Japa, com o qual divido este espaço, já havia colocado umas músicas em CDs que escutamos em alguma bebedeira nos botecos da vida. “É o momento de ouvir de verdade”, pensei comigo.


Desde o sábado tenho ficado com as músicas na cabeça. A coletânea se chama Capitol Collector Series. Tem, acredito, as melhores canções do Grand Funk ao longo de sua carreira. Ainda não pude ouvir todos os álbuns, pois minha Internet não está lá essas coisas para baixá-los.


Mesmo assim, a versão de Gimme Shelter dessa coletânea está efusivamente insistindo para que eu ouça toda a discografia. E, lógico, farei isso! Sugiro, portanto, que você, meu amigo internauta bom de música, baixe já uma coletânea do Grand Funk para conhecer também um pouco dessa banda sensacional.

Recomendações especiais: Heartbreaker, Closer to Home, Mean Mistreater, Feelin Alright, e We’re an American Band. A primeira, por exemplo, realmente parte corações; não sei explicar como, mesmo porque meu inglês é pífio, mas parte; algo na batida, ou na voz, na guitarra... Feelin Alright te faz se sentir bem de verdade! E a patriótica We’re an American Band com certeza vai te lembrar umas outras tantas músicas daqueles anos; mesmo assim diferente. Quanto a Closer to Home, sem comentários (você vai entender ao ouvir).


Da coletânea, resta dizer que é perfeita para começar, tendo pelo menos uma música de cada álbum dos 17 anos de carreira. É perfeito também para pegar a estrada com o som no último num dia de sol! Se for em uma Harley então!


Tenho um tio turco (possuidor de uma belíssima Harley) que sempre me pergunta: “Sabe o que é isso que está tocando?”; Grand Funk, claro, mas eu nunca sabia. Pelo menos a banda agora eu vou saber, falta a experiência de ouvir em cima de uma Harley na rota 66.

 
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