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terça-feira, abril 05, 2011

Argumentos Para Não Ler “O Monge e o Executivo”



"A constância de ânimo, com paz e tranqüilidade, não só enriquece a pessoa, como a ajuda muito a julgar melhor as adversidades, dando-lhes a solução conveniente." 

(São João da Cruz)

 “O Monge e o Executivo” surgiu em meu caminho de maneira diferente, não foi uma escolha, fui de certa forma forçado a ler a obra de James C. Hunter para auxiliar um amigo em uma pesquisa de faculdade.

Antes de ler o best-seller procurei algumas informações em críticas e resenhas espalhadas em publicações impressas e na Internet e a grande maioria apontava o livro como um achado. O preferido de milhares de anônimos no orkut , de algumas centenas de executivos de sucesso e de pelo menos meia dúzia de bilionários que dirigem grandes conglomerados financeiros. O mais lido em x países, líder de vendas no Brasil por y semanas, traduzido até para o malaio.

Parti para a leitura e dois dias foram suficientes para terminá-la - mas confesso que levei um tempo bem maior até conseguir digerir o conteúdo e formatar minha opinião a respeito.

Em um primeiro momento o livro parece ter uma clara definição de seu público alvo: Gerentes e administradores em posições de liderança que precisam diariamente se relacionar com um grande número de funcionários. Na prática a obra mostrou possuir um público mais abrangente e acabou fazendo um grande sucesso entre a massa de leitores convencionais que buscavam extrair das páginas do livro lições para o dia-a-dia ou ainda “receitas” de como se tornar um líder. Observe o disfarce.

A narrativa gira em torno das experiências do gerente-geral John Daily e de um grupo de pessoas de diferentes classes e personalidades em um retiro de uma semana no mosteiro São João da Cruz.

Durante a estada o monge Simeão, um ex-executivo de sucesso, tentará oferecer à todos lições sobre liderança e convivência. A partir desse momento tudo são atalhos. 

A figura de um monge e de um mosteiro são os superlativos implícitos para um professor e uma sala de aula, trazem noções de valores e sabedoria que seriam difíceis de traduzir ou levariam páginas demais para serem expostos. A sala é um conjunto limitado de personagens quase caricatas e sem profundidade que realizam de forma mecânica seus objetivos na narrativa. Alguns contrariam, alguns concordam e outros completam as lições que se estendem por aulas em seu formato clássico, descritas através de capítulos didáticos e diretos. O “antagonista” representado pela figura do Sargento Greg possui um comportamento “militar” estereotipado que beira o risível, cabe a ele discordar sempre para que a “aula” tenha seu andamento e que conceitos de liderança sejam apresentados sob a forma de palavras como: amor, autoridade, servidão, ambiente, paciência entre outras.

Perceba que o argumento de crescimento pessoal e profissional expressado no livro dá uma ênfase às questões emocionais das personagens. O conflito vivido pelo protagonista é de ordem familiar e não profissional e as “lições” do Monge para o Executivo giram em torno de adequar emoções, controlar sentimentos e corrigir falhas de relacionamento. Problemas que todos temos com soluções que podemos ao menos tentar.

De alguma forma fica implícito que seremos pessoas mais bem sucedidas financeiramente e atingiremos um patamar de liderança em nossa vida profissional se resolvermos primeiro nossos problemas pessoais e, sobretudo, de comportamento. Não que isso seja uma falácia, mas cai como uma meia verdade pouco sincera.

È óbvio que a sociedade não permite que todos sejam líderes, e sugerir que todos se comportem como tal é uma forma de oportunismo.

O resultado é o livro ideal para o patrão - que percebeu que é ótimo indicá-lo para seus subordinados. O funcionário se empenhará cada dia mais em seu emprego e mostrará iniciativa de um líder com um salário de plebeu, não reclamará, será dócil gentil e dedicado, buscará sua promoção através do merecimento de seu suor e de sua competência, gerando assim uma fábrica inteira de postulantes à um cargo que não está a disposição. Todos se imaginam o grande líder de amanhã.

Sou a favor do esclarecimento geral, apóio (quase) todo tipo de leitura, mas faço questão de desaprovar aquelas que causam retrocesso ou algum tipo de desilusão e desapontamento. Não custava esclarecer um pouco mais as coisas, delimitar melhor o público alvo, e ser sincero que a obra não resolverá nada sozinha na vida de ninguém. Não estou dizendo que o livro foi um caça-níqueis planejado, nem duvido aqui da idoneidade do autor, mas de boas intenções o inferno está cheio...

Em um país desigual como o Brasil, as mais de 700 mil cópias vendidas de “O Monge e o Executivo” podem gerar do dia para a noite meio milhão de cidadãos frustrados por não serem líderes seguindo sua receita, e tudo somente porque não compreenderam exatamente as mensagens do livro.

Portanto posso enumerar aqui argumentos diversos para não recomendar o livro, de sua construção ao seu conteúdo, mas na realidade o verdadeiro motivo é apenas um: é errado criar falsas esperanças.

domingo, março 27, 2011

Na Natureza Selvagem


“Morrendo longe da civilização, Um Andarilho Registrou o Terror

Anchorage, 12 de setembro(AP) – No domingo passado, um jovem andarilho, detido por um ferimento, foi encontrado morto num acampamento remoto no interior do Alasca. Ninguém sabe ao certo quem era ele. Mas seu diário e dois bilhetes encontrados no acampamento contam uma história angustiante de seus esforços desesperados e progressivamente inúteis para sobreviver...”

( The New York Times, 13 de Setembro de 1992)

“S.O.S. Preciso de sua ajuda. Estou ferido, quase morto e fraco demais para sair daqui. Estou sozinho, isto não é piada. Em nome de Deus, por favor fique para me salvar. Estou catando frutas por perto e devo voltar esta tarde obrigado.” (Bilhete encontrado com o corpo de McCandless)

“Tive uma vida feliz e agradeço a Deus. Adeus e que Deus abençoe a todos” (Nota de despedida escrita por McCandless no verso do poema “Homens Sábios em Suas Horas Ruins” de Robinson Jeffers)

Poucas notícias chamaram mais a atenção, em 1992, do que a história do jovem Christopher MacCandless.

Encontrado no meio do Alaska por caçadores de alce, morto provavelmente de inanição, seu corpo pesava pouco mais de 30 quilos e chocou a opinião pública nos Estados Unidos.

Proveniente de uma família rica, MacCandles terminou a faculdade como um aluno distinto, com altas notas em disciplinas humanas e sociais, e desapareceu. Doou sua poupança para entidades beneficentes, abandonou seu automóvel, queimou o dinheiro que tinha na carteira, adotou o nome de Alex e passou a vagar às margens da sociedade.

Leitor de Tolstói e Jack London, de personalidade amigável e equilibrada, os dois anos vividos na “estrada” revelam um jovem em uma busca perturbadora por uma forma verídica de autoconhecimento, através da negação completa dos bens materiais e de tudo que é desnecessário para a vida, estabelece para si uma luta constante contra os próprios medos e contra o improvável.

A vida resumida à viagens de carona, a uma mochila, e ao mínimo de conforto possível. No caminho o trabalho temporário fornece o dinheiro apenas para seguir em frente, sem nenhum apego ou acúmulo desnecessário. O convívio com marginalizados, excluídos, hippies, vagabundos e trabalhadores braçais substitui a vida universitária promissora.
Como objetivo maior: viver da terra. Enfrentar a natureza selvagem.

MacCandless não foi capaz de sobreviver à própria história, e seus dois últimos anos de vida foram reconstruídos pelo repórter Jon Krakauer que ficou fascinado com o idealismo puro e inconseqüente do jovem. Em 2007, Sean Penn dirigiu com brilhantismo um filme fiel aos relatos poderosos, com uma narrativa ágil e bem construída, a produção tem o mérito de ser em sua essência tão perturbadora quanto o livro.

Alex ou Chris se tornou assim um mito entre os viajantes, entre os aventureiros, entre todos que aprovam ou desaprovam as atitudes da juventude levadas às últimas conseqüências.
Herói ou vilão a discussão sobre a curta trajetória de aventura de MacCandless serviu como um alerta à muitas coisas.

Deixou para a sociedade um debate cáustico sobre nosso modo de vida, mostrou para todos os aventureiros que a natureza pode ser impiedosa quando quer e que qualquer atitude, por mais heróica que seja, pode ser apenas um suicídio estúpido se não for planejada com o devido cuidado.

Idolatrado por alguns pela sua coragem e condenado por outros pelo idealismo inconseqüente, acredito que Chris atingiu seu maior propósito: fazer a diferença, deixar o seu recado.

Chegam a ser comoventes as anotações que restaram junto ao corpo encontrado na carcaça de ônibus no meio do Alaska. Imaginar suas privações e talvez a mais dolorosa das mortes, definhando de fome e sede, causam um desconforto quase indecifrável.

A realidade, porém, é dura. Chris era um jovem brilhante, mas assim como todos tinha suas diferenças e conflitos com seus pais; corajoso e determinado, parece ter planejado mais sua ideologia irredutível contra os argumentos de todos que o desencorajaram a prosseguir, do que sua viajem épica.

A última pessoa a ver o jovem com vida, o eletricista Jim Gallien, afirmou à Krakauer que o equipamento de Chris não passava de 12 quilos, sua espingarda era pequena e nada poderia fazer contra um urso, suas botas não eram impermeáveis e que ele não possuía
sequer um mapa detalhado da região.

Apesar das inúmeras provas de que a incursão ao Alaska foi um fracasso pelas inúmeras falhas de planejamento de seu protagonista a revolta surgida contra a morte prematura de MacCandless é na verdade frustrante. Após conhecermos sua trajetória todos gostaríamos de vê-lo retornando triunfante para contar a própria saga.

Estúpido ou genial, idealista ou inconseqüente, a história de “Na Natureza Selvagem” é uma aula sobre a vida, sobre momentos e pensamentos que todos nós tivemos um dia.



O auto-retrato encontrado com MacCandless, que encerra o filme de Sean Penn, mostra um aventureiro sorridente apesar da fome, apesar das privações e das dificuldades, mostrando estar ciente de suas escolhas e conseqüências. Seu olhar não tem um pingo de remorso ou arrependimento.

 “Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a oportunidade de sacrificar-me por meu amor.”Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava escoadouro na vida tranqüila”.

Como na citação sublinhada no livro de Tolstói, “Felicidade Familiar”, encontrado no local da morte de Chris, percebemos que nada poderíamos fazer para impedir um jovem determinado a encontrar sua forma de felicidade mesmo que isso lhe custasse a vida. A força natural mais exuberante da história é a determinação.


(Na foto, Chris durante a infância com seus pais e sua irmã)

quarta-feira, março 16, 2011

A Estranha Mania de Ler Roteiros



Chapter Thirteen...

               "He types... On the SOUNDTRACK we hear the CASINO noise.

                                     JACK'S VOICE
                         It's all numbers, the croupier
                         thought. A spin of the wheel. A
                         turn of a card. The time of your
                         life. The date of your birth. The
                         year of your death. In the Book of
                         Numbers the Lord said: 'thou shalt
                         count thy steps" (Croupier - by Paul Mayersberg)

           
Parte da atração em ser um apreciador de cinema é colecionar hábitos inconvencionais em relação à grande maioria de espectadores casuais.

Estudar formatos, tendências, reconhecer o estilo de cada diretor, a filmografia de atores prediletos, colecionar trilhas sonoras, ser fã número 1 do editor de som fulano, saber de trás para frente os filmes lançados na Eslovênia na década de 70; os fetiches cinematográficos se manifestam em pequenos graus de curiosidade até um estado de obsessão bem próximo da paranóia.

Uma vez conheci um cara que tinha transtorno obsessivo compulsivo e piscava desesperadamente a cada cinco segundos. Menos quando assistia à um clássico do cinema italiano - Rosselini, Pasolini, Antonioni e principalmente Fellini, tinham um poder curativo quase shamanístico sobre ele.
Com tantas manias na prateleira para escolher, confesso que no início de minha vida de cinéfilo foi inevitável não ceder a tentação de ler roteiros.

Começou lá pelos meus dezesseis anos, quando já lia alguma coisa em inglês sem maiores dificuldades, e despertei minha audição para a genialidade de alguns diálogos que adorava guardar e repetir.

O acesso aos roteiros não era uma das coisas mais fáceis de se ter em mãos naquela época, me lembro que a Internet discada era uma porcaria, o número de sites sobre cinema era bastante reduzido e achar roteiros na web era procurar agulhas em um palheiro.

Nos primeiros anos, me deliciava em repetir exaustivamente no vídeo cassete minhas cenas prediletas, enquanto anotava em um bloquinho os diálogos em inglês.

Foi assim com “Táxi Driver”, “Blade Runner”, “Cães de Aluguel”, “Duro de Matar” “Máquina Mortífera”, e tantos outros nomes que eram selecionados somente pelo critério de número de frases bacanas de serem lembradas, sem preconceito com qualquer filme, adorava alguns diálogos de “Viagem Insólita”,  “Os Goonies” e “Exterminador do Futuro 2”.

  Travis:
Loneliness has followed me all my life.  The life of loneliness pursues me wherever I go: in bars, cars, coffee shops, theaters,  stores, sidewalks.  There is no escape.  I am God's lonely man.

I am not a fool.  I will no longer fool myself.  I will no longer let myself fall apart, become a joke and object of ridicule.  I know  there is no longer any hope.  I cannot continue this hollow, empty fight.  I must sleep.  What hope is there for me?(Taxi Driver - by Paul Schrader)



Após um tempo esse hábito virou um hobby bastante prazeroso, com a melhora da Internet e do ambiente de rede já era possível encontrar um ou outro roteiro para ler.

Achei no sebo uma vez uma tradução do roteiro de “Laranja Mecânica” e até hoje dou risada quando lembro minha satisfação.

Organizei em meu computador pessoal mais de cinqüenta frases selecionadas -que dariam um bom livro cheguei a pensar.

Aí passei na faculdade de jornalismo. O tempo ficou escasso e um belo dia meu computador queimou colocando fim de forma irremediável ao meu arquivo pessoal.
Como um vício é recorrente, uma hora ou outra sempre acabo por ler um roteiro ao invés de ler um livro. Sugiro a experiência, é um pouco estranho no começo, mas depois se torna tão agradável quanto ler um bom romance.

Por isso deixo aqui dicas de roteiros infalíveis para a leitura de um iniciante.
Qualquer um dos roteiros de longas assinados por Quentin Tarantino são um deleite; as linhas narrativas e diálogos cheios de sacadas e humor negro são realmente demais.
A maioria dos filmes de David Mammet também oferecem roteiros muito interessantes, que nem sempre atingem na execução o potencial das linhas, as tramas apresentam bons momentos de suspense e reviravoltas.

Aconselho a maioria dos suspenses policiais e desaconselho comédias e filmes de terror, que perdem muito sem o poder das imagens.

Para encerrar, existem ainda roteiros irresistíveis pela sua construção, pela narração em off das personagens. Alguns de meus prediletos estão entre eles: “Clube da Luta”, “Táxi Driver” e “Croupier”.


Tyler tugs at Jack's arm.

TYLER
We are God's middle children, with no special place in history and no special attention. Unless we get God's attention, we have no hope of damnation or redemption.

Jack looks at Tyler and they lock eyes in a stare.

TYLER
The lower you fall, the higher you fly.  The farther you run, the more God wants you back.

Jack does his best to stifle his spasms and quivers of pain.  Tears drip from his eyes.

TYLER
Someday, you will die.  And until you know that, you're useless to me.

Tyler's eyes fill with tears and he smiles.  Suddenly, Jack starts breathing heavily and he shakes his hand....( Fight Club - Jim Uhls)

 O que motivou este artigo foi um pequeno trecho do roteiro do filme “Croupier”, talvez a mais desconhecida das indicações citadas. Surgiu como uma recaída nessa semana aonde os números me perseguiram em datas, códigos, senhas, horas, limites, me peguei repetindo de cor um trecho que não lia há anos:

 “ É tudo números pensou o croupier. O girar da roleta. A virada de uma carta. O tempo da sua vida. A data do seu nascimento. O ano de sua morte. No Livro dos Números, o Senhor disse – Contarei vossos passos”

Quem estava perto pensou que eu era louco. Com um pequeno sorriso voltei para a casa e reli o roteiro completo. Louco não, só mais um cinéfilo cheio de manias.

 

segunda-feira, março 14, 2011

Dexter e o Homem de Kipling





If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings --nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And --which is more-- you'll be a Man, my son!
Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!


Quando o escritor britânico Rudyard Kipling encerrou seu mais conhecido poema utilizando a palavra “Man”, grafada com a letra maiúscula, ele criava um conceito de homem ideal muito distante da realidade.

Nas breves linhas de “If” (Se) o que vemos é a construção de um autômato social perfeito - adequado e de arestas aparadas para o convívio pacífico em qualquer ambiente. O poema adotado por muitos como mote pela sua exuberância técnica e conteúdo utópico sem dúvida fica muito bonito em molduras douradas nas paredes de grandes conglomerados executivos. Médicos, administradores, publicitários, empresários, artistas e qualquer homem considerado “de sucesso” adora o regalo de poder citar um ou dois versos de Kipling para se sentir mais humano e bondoso, mais cordial e menos torpe. 

O sucesso da série de televisão Dexter, exibida pelo canal Showtime desde 2006, segue por definição o caminho inverso do proposto pelo homem de Kipling.
Baseada no livro “Dark Dreaming Dexter”, de Jeff Lindsay, a série escolhe como protagonista um pouco ortodoxo serial killer.

Depois da cortina de fumaça e do alarde social criado pelo argumento ousado, o que restou após o fim da “choradeira” ética e moral, que condenava a humanização de um assassino, foi uma aprovação pública inesperada que aumenta o índice de audiência a cada nova temporada da série.
Dexter Morgan tem o formato perfeito do “Homem de Kipling”. Tem um bom emprego, uma vida social aparentemente estável e feliz, um comportamento amigável, gentil e generoso.
No entanto, a máscara de Dexter cai logo nos primeiros minutos de seu episódio piloto. O expectador é convidado a conhecer os pensamentos que permeiam a mente do personagem, enquanto este finge emoções e controla cada reação para esconder da sociedade a realidade sobre seu hobby predileto: matar pessoas.

Em nenhum momento o argumento da série faz concessões a crueza da situação proposta. O interlocutor é convidado a conhecer à fundo as motivações e os pensamentos de um assassino em série, por isso não espere sutilezas. Dexter é cruel, sádico e sanguinário.
Inteligente, se beneficia de seu status privilegiado dentro da polícia, aonde tem livre acesso por ser um perito forense especializado em sangue, levando vantagem na hora de selecionar suas vitimas e esconder seus crimes.

Por ser extremamente humano e possivelmente mais crível que a maioria das personagens criadas para o entretenimento Dexter assassinou o “homem de kipling” e mais do que isso, foi inocentado pelo júri popular.

Todos nós possuímos defeitos, falhas e atitudes condenáveis socialmente que escondemos do mais intimo de nossos amigos. Ficamos felizes com o fracasso alheio, odiamos mais do que amamos, adoramos criar intrigas, separar pessoas, incentivar tumultos, vaiar. Provavelmente sentimos mais prazer em quebrar os dez mandamentos e sucumbir aos sete pecados capitais do que fazer uma boa ação. 

Por isso nos sentimos confortados em perceber que apesar de possuirmos comportamentos tão cruéis e torpes ainda não assassinamos ninguém. 

O deleite instigado pela série é justamente o oposto daquele causado pelo poema de Kipling.
Se podes perder a cabeça enquanto todos fingem que estão bem, se podes tripudiar na derrota alheia, lesar e causar dano a quem te calunia e ainda assim sentirdes humano.
Se aceitas com naturalidade ser intolerante, incompreensivo e orgulhoso, superior aos menores que tu na hierarquia social e não sentes remorso com esta situação.

Se vivendo te permites perder as esperanças, ser cético e incrédulo na bondade individual ou coletiva enquanto tantos fingem acreditar.

Se te levantas a cada queda a ti imposta motivado apenas pelos sentimentos de revanche e vingança.
Se buscas enforcar o rei e explorar a plebe.

Neste dia alegra-te meu filho: Serás Homem.

Não parece tão plausível como o “Se” original ?

Sob esse pretexto Dexter iniciou neste mês sua quarta temporada e a cada ano se torna mais convincente. A tendência na série em “humanizar” a personagem central segue ainda com moderação, sem radicalismos, para não virar “mais uma” ficção. 

Os índices de audiência continuam derrubando a hipocrisia de quem recita Kipling mas assiste com um largo sorriso cada punhalada de Dexter.

O autômato de “If” segue ótimo na teoria, vigoroso e altivo como de costume, uma ótima meta que todos de certa forma objetivamos para o dia de amanhã. Por hoje somos humanos e adoramos uma boa série de televisão.


domingo, março 13, 2011

Aprendendo Política com Patativa do Assaré

"Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim"
(Millôr Fernandes)

"Repare que a minha vida
É deferente da sua. A sua rima pulida
Nasceu no salão da rua.
Já eu sou bem deferente,
Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte das obra da criação. 
Seu verso é uma mistura,
É um tá sarapaté,
Que quem tem pôca leitura
Lê, mais não sabe o que é.
Tem tanta coisa incantada,
Tanta deusa, tanta fada,
Tanto mistéro e condão
E ôtros negoço impossive.
Eu canto as coisa visive
Do meu querido sertão.


(Cante Lá que eu Canto Cá - Patativa do Assaré)


A todos nós eleitores que a cada pleito provamos na urna o efeito, muitas vezes catastrófico, do modelo democrático fica aqui uma lição do finado Sr. Patativa do Assaré.

Antes de começar vejamos nossa situação atual. Após ciclos infindáveis que renovam o poder público e nacional com eleições de dois em dois anos, o povo não se cansa de reclamar e abrir o chororô em todas as escalas, sejam elas federais, estaduais ou municipais. 

Ninguém explica como a tartaruga subiu no poste. Todos olham para ela indignados e exclamam: “Desce daí sua sem-vergonha!” 

Mas ninguém busca a escada para tirá-la de lá. Ninguém se organiza para um ato concreto - que seja derrubar o poste.

E assim se renova o ciclo quase que perene de eleger e reclamar até as próximas eleições.
Para quem não sabe, Antonio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, além de poeta, compositor, músico popular e improvisador, tomou para si uma das tarefas mais árduas que se pode conceber em solo tupiniquim: a de esclarecer o povo.

Nascido em Assaré no Ceará, Patativa padeceu da sina comum de tantos severinos de sobreviver da agricultura e ser explorado pelo coronelismo. Ficou cego de uma das vistas muito cedo o que parece ter lhe garantido um dom de ciência e de compreensão, quase uma clarividência, capaz de enxergar muito além da aridez do nordeste, criando versos e histórias e transmitindo através da oralidade lições de democracia, sociedade e convivência humana.

Para quem torce o nariz e trata com preconceito os versos de Antônio, vale saber que ninguém no meio acadêmico conseguiu até hoje dissecar de forma completa a vida e a obra deste poeta reconhecidamente talentoso. A oralidade,marca maior de seu estilo, não compromete a distribuição das rimas organizadas de forma intuitiva em moldes camonianos, muitas vezes em sonetos de rimas clássicas, outras em décimas e sextilhas nordestinas.

O poder imagético de sua prosa e verso é tão fabuloso quanto didático.

Imaginem a cena. Um boi zebu todo suado querendo fugir do sol se esconde à sombra de m grande juazeiro. Sem perceber, ao parar, coloca as quatro patas em cima de um formigueiro.

As formigas, indignadas com o disparate, ordenadamente começaram a revolução. Uma a uma escalando, picando e atacando foram contra o boi zebu, que relutou em sair da sombra que tanto lhe protegia. Ao ver que não podia vencer as formigas, porque eram numerosas demais, abandonou a sombra do juazeiro derrotado.

Moral da história ? Vamos Minhas Camaradas Esse Boi Zebu é só um !

Contra  “boi-zebu-senador”,  “boi-zebu-prefeito” ou “boi-zebu-deputado”, mamando e descansando na sombra do imenso juazeiro que pode ser nosso país, estado ou município a lição é uma só.
Lição de democracia pela base. Muitos escolhem um, porque muitos são mais do que um. O poder está com a massa e não com a minoria, basta mobilizar e corrigir.

O grito da ave Patativa ecoava no mais árduo terreno político do país. O nordeste . E lá sem se intimidar as poesias e rimas viraram livros, cordéis, canções e atingiram o povo sofrido que aprendia um pouco, ao repetir sem saber ler, as rimas de “O Boi Zebu e as Formigas”, “Eu quero”, “O Operário e o Agregado”, “A Terra é Natura”, “Nordestino Sim, Nordestinado Não” e tantas outras.
Por isso a poesia de Patativa avançava em várias frentes.

Ensinava o povo a votar:
“Quero um chefe brasileiro /Fiel, firme e justiceiro /Capaz de nos proteger, /Que do campo até a rua /O povo todo possua /O direito de viver.”

A ser patriota:
“Eu quero o agregado isento/ Do terrível sofrimento/ Do maldito cativeiro,/ Quero ver o meu pais /Rico, ditoso e feliz / Livre do jugo estrangeiro.”

A separar religião de política:
“Não é Deus que nos castiga,/ Nem é a seca que obriga / Sofrermos dura sentença,/ Não somos nordestinados, / Nós somos injustiçados / Tratados com indiferença...
...Mas não é o Pai Celeste/ Que faz sair do Nordeste/ Legiões de retirantes, / Os grandes martírios seus / Não é permissão de Deus,/ É culpa dos governantes.”

E em último caso a se rebelar e exigir justiça contra o governante corrupto eleito.
“Com a feição de guerrêra /Uma formiga animada / Gritou para as companhêra:/ Vamo minhas camarada /Acaba com os capricho /Deste ignorante bicho/ Com a nossa força comum /Defendendo o formiguêro/ Nos somos muitos miêro /E este zebu é só um.”

Então formigaiada antes de reclamar da rotatória municipal, do presidente do senado, do deputado corrupto o ideal é todos nós lermos e ouvirmos um pouco do chiar de Patativa, e assim quem sabe, mobilizar e resolver alguma coisa. Seja nas próximas eleições ou ainda neste mandato não podemos esquecer:
“- Este Zebu é só um”




Alice e o Enigma de Lewis Carrol



“Por que um corvo se parece com uma escrivaninha ?


Considerada uma das obras mais significativas da literatura mundial, o suposto livro para crianças, “Alice no País das Maravilhas” já virou desenho em 1951, foi revisitado e lançado para os cinemas em outra versão dos estúdios Disney, em uma corajosa releitura do diretor genial e maluco Tim Burton e continua ainda hoje sua saga de obra imortal atravessando gerações.

O livro publicado em 1865 traz aos leitores atentos diversos enigmas ligados diretamente a personalidade quase única de seu autor Charles Lutwidge Doogson - que assumiria posteriormente a alcunha Lewis Carroll.

A história oficial sobre a origem do livro versa que a personagem Alice era inspirada em uma amiga das irmãs mais jovens de Lewis e toda a narrativa teria surgido em uma tarde às margens do rio Tâmisa, aonde o autor contou para a jovem e suas irmãs a surpreendente história de uma garotinha que perseguiu um coelho branco de relógio e colete para dentro da toca que levava a um mundo de fantasias. Fato recorrente na vida do autor que, segundo afirmam seus historiadores, gostava de entreter crianças e adultos em longas tardes aonde narrava histórias "feitas na hora".

Muito já se foi falado sobre a obra que contém em suas linhas algumas citações quase incompreensíveis nos dias de hoje - referentes à cultura da era vitoriana, à supostos enigmas matemáticos e charadas insolúveis.

Minha impressão pessoal ao ler a obra é que se trata realmente da transcrição de um relato oral, e isso não deixa dúvidas. A história segue, apesar do absurdo, quase sem explicações para quem está do lado de cá, criando a impressão que realmente é necessário ter a idade de uma criança para exercitar a imaginação e não se perder na narrativa absurda que mistura animais falantes, cenas bizarras e situações sem nenhuma lógica aparente que saltam de um lugar para outro sem necessariamente oferecer um desfecho ou explicação para o assunto anterior.

Gostaria de deixar claro aqui que o filme de 1951, uma animação bastante competente, pouco diz a respeito das sensações e incômodos que surgem ao primeiro contato com a obra escrita. A versão original dos estúdios Disney parece uma tradução do livro para o universo infantil, deixando as coisas mais plausíveis e menos esparsas - apesar de cenas bastante fiéis ao original, como a da lagarta fumando narguilê sobre um cogumelo. Vale acrescentar que o filme também apresenta cenas baseadas no livro “Alice no País dos Espelhos”, seqüência da obra original.

Após encerrar a leitura da obra me perguntei: “Quem é esse cara ?”

Fiquei confuso. Lewis Carroll entregou ao público, ao meu ver, um livro tão nonsense como uma poesia de Bukowiski e que ainda hoje serve como referência a diversas citações pós-modernas, e todo mundo acreditou que era uma fábula como as de Esopo?

Sem essa! Carroll era um homem de intelecto diferenciado, matemático, professor em Oxford e freqüentador constante dos círculos de alta cultura de sua época. 

Muitas são as teorias que cercam sua obra máxima. Alguns afirmam que a obra é didática e pedagógica, exercita a memória e o raciocínio lógico com a presença de enigmas e citações de poesias da era vitoriana, com introduções ao francês e estímulos deliberados ao imaginário criativo das crianças, sendo assim destinada realmente a um público infantil.

Outros que é uma metáfora que pode ser lida de diversas formas, mas que enfoca principalmente no crescimento e na transição da criança à vida adulta. A confusão mental de Alice ao crescer e diminuir diversas vezes durante o livro e sua dúvida em não saber exatamente quem é representariam a adolescência, por exemplo.

Os caçadores de bruxa ligam a obra ao lado obscuro da vida pessoal de Carroll que tinha o hábito duvidoso de fotografar meninas, entre 8 e 12 anos, nuas, seminuas ou em poses "estranhas" para se dizer o mínimo. Isso mesmo pessoal, para aqueles que ficavam horrorizados com alguns costumes de Michael Jackson, saibam que, em 1865, Carroll declarava abertamente que preferia a companhia de crianças; mais exclusivamente garotas. Cartas entre o autor e algumas meninas com quem ele se relacionava foram publicadas no livro “Cartas às Suas Amigas” e revelam um grau de intimidade no mínimo estranho.

Poucas fotos restaram para registrar para a história a estranha obsessão do autor; a maioria dos retratos foi destruída por ele, revelando uma certa parcela de culpa posterior.

Relatos afirmam que Lewis se sentia constrangido por esse hábito e só fotografava as meninas com a permissão das mães ou dos responsáveis pelas crianças.

Acredito que tudo que se fala sobre o livro tem sua parcela de verdade, menos a leitura ingênua de que ele é apenas uma obra dedicada ao público infantil.

Carroll, assim como todos nós, era humano, e tinha o direito a ser vil e permissivo na sua intimidade - o que contrasta um pouco com a nossa visão de que todo gênio de qualquer coisa tem que ser também um exemplo irrepreensível de conduta.

Lendo e relendo trechos de “Alice no país das Maravilhas” chego a conclusão que é exatamente o mistério que incomoda a nós adultos e a simplicidade da “não explicação” que encanta as crianças. Uma obra completa que prende gerações por motivos diferentes.

Se tivesse uma pergunta para fazer para seu autor
 certamente não seria relacionada ao sentido real da obra ou à suas polêmicas e controversas predileções, esse é um charme que pertence ao mito do livro e não merece ser solucionado, mas sim: qual a resposta para o enigma do chapeleiro?


domingo, março 06, 2011

Um Brasil sem Brasileiros

Texto publicado originalmente em 12 de março de 2009
     
Brasil!
Meu Brasil Brasileiro
Mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor...

(Ary Barrosso)

Recentemente parei para analisar com mais calma as linhas deste espaço reservado a cultura, e sinceramente... Fiquei com raiva de quem escreve!
            Cadê a musica nacional ? Cinema Nacional ? Literatura nacional ? Sem intenção acabei engrossando a lista daqueles que desprezam a rica cultura tupiniquim e exaltam a produção estrangeira. Está por aqui mas em minoria em relação aos colegas além fronteira.
Não pretendo agora me tornar um patriota extremista, longe disso. Não vou ignorar que muita coisa de qualidade surge lá fora e tem que ser mostrada, mas o que me incomoda é que fica a sensação que enxergamos a grama do vizinho sempre mais verde.
            Vivemos uma época, onde principalmente a juventude cosmopolita, não conhece a cultura brasileira. Quando assistimos no noticiário neonazistas espancando um grupo de garotos emocore, devemos nos perguntar: aonde surgiu isso? Não criamos a suástica nem seus preconceitos e ainda por cima importamos um “movimento” que virou febre entre nossos adolescentes, que agora se vestem de preto e falam sobre rock sensível, sem saber as origens disso tudo. No Brasil colhemos os frutos do quintal alheio.
            E isso não é de agora. Com exceção talvez da Bossa Nova, da Tropicália e da Jovem Guarda, nenhum grande movimento nacional se tornou tão popular quanto os internacionais que aqui desembarcaram. O punk, o grunge, o metal, todos esses movimentos de DNA estrangeiro já tiveram seus grandes momentos em terras brasileiras, e muitos deles continuam a manter alguns fiéis seguidores espalhados aqui e ali.
            O mais preocupante é que as principais “vítimas” desse processo de internacionalização em terras nacionais são aqueles que teoricamente tem mais acesso a cultura. Os moradores das grandes capitais, ou das regiões Sul e Sudeste, as classes A e B, são os primeiros a adotar novos modismos e firulas em língua estrangeira, a colocar entre os mais vendidos o livro do escritor inglês fulano e a ouvir no último o som techno-eletro-dance dos franceses. Se um dia a guerra cultural apertar temos ainda alguns abrigos seguros como o Norte e o Nordeste que ainda resistem de certa forma aos estrangeirismos à base de muito Forró, Axé e Baião. Talvez a Lapa e alguns redutos do samba.
            Ás vezes, esquecemos de algumas referências indiscutíveis que possuímos. Porque supervalorizamos Bob Dylan, se temos Chico Buarque de Hollanda? Um trovador tão competente quanto; ainda em atividade, com uma produção musical indiscutível, ótimas peças de teatro e quatro livros lançados.
            E por falar em livro, por quê é chato ler Machado de Assis e é tão bom ler Shakespeare? Alguém por aí já ouviu falar de João Antônio? Enquanto Jack Kerouac viaja pelos subúrbios dos E.U.A em “On The Road”, João Antônio fala sobre nossa ralé, guardadores de carros, viradores, prostitutas, leões-de-chácara, e jogadores de sinuca em uma prosa rica e elaborada.
            Ah! E ainda tem aqueles que se recusam a enxergar o óbvio! Por que a bonitinha roqueira que hoje se destaca entre os jovens “indie”(mais uma forma estrangeira de falar “independente), fala tanto em inglês e canta lendas do folk rock e southern rock ?
Simples porque não sabe ou se recusa a entender que aqui tivemos, por exemplo, Sá, Rodrix e Guarabira, que faziam por essas bandas o mesmo que Crosby, Still and Nash faziam lá fora. Pink Floyd, Emerson Lake and Palmer, e tantas outras bandas de talento indiscutível faziam experimentações e criavam um rock tão psicodélico quanto os Mutantes e o Secos e Molhados. Se os ingleses tem o chamado Brit-Pop, temos o suburbano Mangue-Beat.
            Não vou falar de Bossa Nova, que é covardia. Todos sabem que até os gringos se ajoelharam ao violão de João Gilberto, ao Piano de Jobim, a bateria de Milton Banana e a poesia de Vinícius.
            E o cinema ? Claro muitos cinéfilos falam de boca cheia de Rosselini, Pasolini, Truffaut e esquecem Glauber Rocha. Assista “Deus e o Diabo na Terra do Sol” para ver uma aula de cinema sem recursos.

            Alguns brasileiros desenvolveram também o hábito de serem preconceituosos com a produção nacional. Muitos torcem o nariz para música sertaneja raiz, baião, axé, pagode e tantos outros gêneros que não são “cool” o bastante para a galera que houve emocore, rock e pop. Outros se entregam ao “cinema-pipoca-acéfalo-sem conteúdo”, mas cheio de efeitos especiais, em detrimento das produções nacionais que obviamente se apresentam mais modestas e sem as parafernalhas de Hollywood. Perderam nos últimos anos, por exemplo, os ótimos “Amarelo Manga”, “O Homem que Copiava”, “O Cheiro do Ralo”, “Cinema,Urubus e Aspirinas”  entre outros.
            Por isso precisamos que os brasileiros salvem o Brasil. Que tenham orgulho de Tião Carreiro, um monstro da viola que inventou a música sertaneja que conhecemos hoje. Que lembrem de Glauber Rocha, de Machado de Assis e os respeitem, que os indiquem aos seus melhores amigos. Precisamos de novos Gonzagas e Buarques na música, escritores como Lima Barreto, poetas como Manuel Bandeira, uma nova safra para encher de orgulho o brasileiro desmotivado que olha para fora quando pensa em cultura. Não podemos continuar vivendo no Brasil sem sermos brasileiros em primeiro lugar.
            Encerro com a licença poética de Vinicíus. A bênção Cartola, Pixinguinha, Noel. A bênção Jorge Amado, Graciliano Ramos e Mario Quintana. A benção Nelson Pereira dos Santos, Anselmo Duarte, Fernando Meirelles e Walter Salles. Saravá ! A benção que eu vou partir !

quarta-feira, novembro 25, 2009

Poema Sujo - Ferreira Gullar



Entre muitos poetas que admiro, Ferreira Gullar se destaca por ter sobrevivido ao tempo. E de forma literal. Sua obra mais aclamada “Poema Sujo” completou este ano seu 33° aniversário, enquanto seu autor já contabiliza 79 velinhas.


Diferente de muitos outros autores que deixaram seu legado e agora colhem apenas as homenagens póstumas pelo seu trabalho, José Ribamar Ferreira ainda hoje é tão vivo quanto as massas de carne dentro do microvestido rosa que causaram furor e euforia há algumas semanas em um espaço universitário.


É triste perceber como no Brasil críamos notícia com qualquer coisa, até com o absurdo. Preferia ver nos noticiários a chamada: “Grande tumulto causado pela presença de Ferreira Gullar em debate literário da universidade X”, mas ao invés disso, semanas depois do fato bizonho, abro a página de um grande portal da Internet e vejo a figura da loira que usou uma peça de roupa mais curta que o bom senso e agora sorri para as lentes de um fotógrafo dando uma entrevista monossilábica sobre sua recente fama. Talvez no dia de sua morte o poeta receba por um dia os holofotes.


Não escolhi a ex-anônima Geyse para ilustrar este texto à toa. Relendo “Poema Sujo” percebi que a força incontrolável das palavras que brotam neste poema longo usam e abusam do impacto da hipocrisia da sociedade, hipocrisia vista em doses fartas no episódio da estudante que foi hostilizada por vestir uma roupa considerada "muito curta".

Ferreira Gullar utiliza suas memórias vividas em São Luís do Maranhão para construir um texto ambíguo extremamente pessoal e ao mesmo tempo coletivo. Suas experiências pessoais se sobressaltam em um mosaico descritivo cheio de cenas e cenários impactantes que descrevem não só sua vida, mas capítulos que todos nós vivenciamos uma hora ou outra de nossa existência.

A linguagem “suja” que permeia as páginas da obra foi escolhida cirurgicamente para causar desconforto e dar um tapa na cara da sociedade que finge ser o que não é.

Perceba que a palavra “vagina” pode ser utilizada mil vezes em um livro de biologia sem causar estranhamento, mas basta utilizá-la uma vez em uma obra literária para causar no mais pudico leitor aquela sensação de obra perniciosa que deve ser lida escondida em baixo da cama.


“Tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como uma boca do corpo...”

Vemos bucetas diariamente, na televisão, em sites, em revistas, na nossa cama esperando pelo coito, em nossa imaginação despimos a mulher mais próxima; e para não correr o risco de ser machista ou sexista as mulheres também vêem e imaginam pintos.

Basta ilustrar em palavras que tudo parece errado, imoral e certamente engorda.

Muito do charme de “Poema Sujo” está aí. Da linguagem mais poética ao termo mais ordinário, tudo é utilizado em prol das sensações.

E quanto a Geyse? Bem é o retrato que nossa sociedade continua hipócrita. Se ela pertencesse a uma minoria estaríamos vivenciando uma tragédia ainda maior, ou alguém dúvida que a história do “vestido curto” se tornaria rapidamente outra caso se sua protagonista fosse negra, homossexual, pobre, usuária de maconha... etc...etc...

Estamos ficando chatos e tacanhos, proibimos ao invés de liberar, vide o cigarro. Nossa juventude que antes lutava pela liberdade libertária hoje se resigna a defender uma pseudo-moralidade que decide o que o outro vestir - tudo isso em um ambiente universitário, que na teoria deveria ser o palco da liberdade individual.

Vergonhoso em um país aonde crianças iniciam sua vida sexual aos 12 anos por falta de uma educação coerente ver um monte de marmanjos brigando por uma mini-saia que esconde o que Ferreira Gullar já escancarava entre folhas de bananeira em seus poemas.

Não defendo aqui nenhuma forma de imoralidade, nenhuma bandeira feminista, nenhuma bandeira machista, nenhuma forma de anarquia ou coisa do tipo, mas um pouco de bom senso coletivo não faria mal.

Quanto a ver Geise nos noticiários... já deu né ?

Para encerrar vamos ver mais uma das vaginas de Ferreira Gullar, sem mini saia, escancarada para seu público meter a mão.



“...e as palavras,
e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
mais sentidos
para explodir como uma galáxia
de leite
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos...”

domingo, outubro 18, 2009

Bontsha, O Silencioso - Isaac Leib Peretz




"Bontsha era um ser humano. Viveu desconhecido, no silêncio, e no silêncio morreu, depois de passar pela vida como uma sombra. No dia em que Bontsha nasceu, ninguém ficou alegre, ninguém tomou um copo de vinho. Na sua confirmação, não houve discurso nem celebração. Viveu como o grão de areia na beira do grande oceano, entre milhões de outros, grãos como ele. E quando o vento, enfim, o levantou e levou com seu sopro para a outra margem, ninguém notou."

Entre os diversos gêneros literários, um que me agrada em especial é o conto. A habilidade de narrar em poucas palavras uma história marcante é sem dúvida uma arte para poucos.

Mesmo os melhores dentre os melhores contistas intercalam momentos de genialidade com o marasmo do lugar comum; impossível ser genial e inovador sempre.

Até os grandes escritores sentem a dificuldade de criar triunfos indiscutíveis em um gênero tão superlotado de aventureiros que escrevem a torto e a direita - tornando o processo de selecionar boas narrativas curtas um processo árduo, porém prazeroso.

O conto escolhido para exemplificar esse caso é o genial “Bontsha, O Silencioso”, uma pérola de lucidez e genialidade concebida pelo escritor polonês Isaac Leib Peretz(1852-1915).

Para nós brasileiros a quase desconhecida obra deste escritor judeu poderia seguir no anonimato sem que com isso sentíssemos falta de bons contos para ler. Por isso a escolha dessa semana, não foi simplesmente para parecer diferenciado ou tentar atribuir a este espaço uma pseudo aura cult pré-fabricada. Nada disso, existe apenas a necessidade de levar a luz a uma obra pouco conhecida mas que merece ser visitada (“Let There be More Light”...o nome não é por acaso.)

É aquela motivação que acontece espontaneamente após terminar um bom livro, assistir a um bom filme ou ouvir um grande disco. Você simplesmente quer que mais pessoas conheçam determinado trabalho e essa sensação se torna ainda mais urgente quando se trata de obras obscuras ou pouco convencionais.

Peretz entrega em seu conto uma história peculiar sobre o ser humano. Bontsha, nunca reclamou, sentiu ódio ou reagiu a qualquer coisa, sem se queixar de Deus, dos homens ou da sociedade sua vida é marcada por um inconfortável silêncio diante da injustiça.

A narrativa tem início com a morte do protagonista e com um desconfortável sarcasmo diante da pequenez humana.

Bontsha é apresentado como um miserável esquecido e desprezado por todos, sua morte e sua história são marcadas pelo anonimato social.

Diante do júri celestial a vida da personagem passa a ser revisitada com um humor caustico pelos anjos que revezam a palavra entre acusação e defesa.

Como julgar alguém que não fez nada de mal a vida toda ?

Falar mais seria estragar a experiência. Para aqueles que desejam ler a história disponibilizo um link para o e-book na Internet, lembrando que o conto foi publicado na coletânea “Os Cem Melhores contos de Humor da Literatura Universal”.

Não se enganem, o texto não faz rir, na verdade causa uma sensação de desconforto nauseante em seu final, humor negro que dá um tapa na cara da hipocrisia com ares de fábula de Esopo.

Se lerem comentem.

quinta-feira, setembro 10, 2009

Os Homens que Não Amavam as Mulheres - Stieg Larsson


Os amigos internautas já devem ter percebido que me atrasei na postagem dessa semana. Peço desculpas. Alguns problemas que não vêm ao caso acabaram por causar essa demora. Mas vamoquevamo!


É o seguinte, vocês já devem ter percebido que gosto de uma literatura leve, daquele tipo que não cai em vestibular e não é tema de roda intelectual – apesar de não desgostar de alguns clássicos também. No momento estou lendo Dom Quixote novamente, após muitos anos; sendo que a primeira vez que o li foi em uma tradução/adaptação que definitivamente não é tão rica quanto o original, ou mesmo quanto boas traduções lusitanas. O caso é que estou lendo uma boa tradução, cheia de referências e tudo o mais, e com isso a leitura tem sido lenta... Aguardem o texto no futuro.


Anteriormente ao fidalgo de La Mancha li um romance policial sueco, o qual é o tema de hoje. Os Homens que Não Amavam as Mulheres, doravante chamado OHNAM. O livro faz parte de uma trilogia, a Millenium, que possui este nome em referência a uma revista fictícia na qual o personagem principal do romance trabalha como editor – além de partilhar a propriedade do veículo com uma amiga/amante/sócia.

Em igual medida a seu personagem, o autor foi ativista político e jornalista influente na sociedade sueca. Uso o verbo no passado, pois Stieg Larsson morreu em 2004, pouco depois de entregar sua trilogia às máquinas da editora que a publicaria.


Admito que o nome soe, no mínimo, estranho; algo como um romance voltado ao público homossexual. Não se engane, isso foi uma escorregadela da nossa sempre eficiente “Central Brasileira de Traduções – Seção Filmes e Livros”; a tradução literal do sueco seria algo como A Menina com a Tatuagem de Dragão.A trama toda é amarrada muito bem, além de, para um desinformado, o romance policial só se apresentar lá pela página 100. Nisso lhe restam mais de 400 páginas de belas paisagens suecas, frio, suspense inteligente, e informações tecnológicas bastante detalhadas.


Em linhas gerais, a história é essa: De cara somos apresentados a um mistério acerca de umas flores que chegam todo ano, ao longo de quarenta anos, à casa de um senhor. Fique tranqüilo, pois dali em diante a parte misteriosa de OHNAM desaparece por um tempo considerável. Lisbeth Salander, co-protagonista da trama aparece como uma jovem esquisita e anti-social que usa de artifícios tecnológicos para trabalhar (leia-se hacker – você perceberá isso imediatamente). Surge Mikael Blomkvist, proprietário e editor chefe da revista Millenium, veículo respeitado e independente, pronto para disparar verdades sobre os tubarões da economia sueca. Em um tiro mal dado, Mikael é processado por um grande investidor e tem de se afastar da revista, o que abre uma brecha para que um milionário aposentado o contrate para escrever a biografia da família.


A partir daí a coisa toda esquenta. Fatos históricos como a Segunda Guerra, a crise da década de 30, e até mesmo a bolha dos Tigres Asiáticos servem de pano de fundo para que os podres da família Vanger venham à tona. Um grande mistério atormenta o patriarca da família. Um desaparecimento. Pistas coletadas minuciosamente. Uma companheira inesperada. Uma descoberta ainda mais escabrosa do que se imaginava.


Sim, o ritmo fica alucinante em dado momento. Admito que me surpreendi. Não achava que era um romance policial quando comprei o livro, mas fiquei gratificado com o bom desenvolvimento e com a escrita cativante de Stieg Larsson. O fato de o final do mistério acontecer antes do fim do livro também foi uma agradável surpresa, visto que deixou a obra um pouco diferente da massa de romances policiais.


Não vou contar muito mais. Creio que consegui colocar uma pulga na orelha de algum de vocês. Aliás, o livro está saindo uma pechincha na maior parte das grandes livrarias. Confesso que só comprei um livro totalmente desconhecido, de um autor sueco que eu nunca ouvi falar, porque custava meros R$ 19,90 (na livraria Martins Fontes) e eu estava de bobeira na Paulista.


Estou curioso pelos outros volumes, cujos nomes são muito menos constrangedores. Já pesquisei e os títulos estão com um valor quase tão irrisório quanto o OHNAM. O que aguardará Mikael e Lisbeth em A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo do Ar?

P.S.: Acabei de ler algumas críticas e não é que o tal Larsson “tá bombando”? Pois sim! Nas listas de mais vendidos em muitos dos 35 países no qual foi publicado. E há um filme sueco que irá estrear em breve, com o primeiro volume. Como eu não ouvi falar antes disso, hein? Será que estou tão alienado assim? Putz, não vou reescrever tudo, pessoal!

 
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