quarta-feira, março 16, 2011

A Estranha Mania de Ler Roteiros



Chapter Thirteen...

               "He types... On the SOUNDTRACK we hear the CASINO noise.

                                     JACK'S VOICE
                         It's all numbers, the croupier
                         thought. A spin of the wheel. A
                         turn of a card. The time of your
                         life. The date of your birth. The
                         year of your death. In the Book of
                         Numbers the Lord said: 'thou shalt
                         count thy steps" (Croupier - by Paul Mayersberg)

           
Parte da atração em ser um apreciador de cinema é colecionar hábitos inconvencionais em relação à grande maioria de espectadores casuais.

Estudar formatos, tendências, reconhecer o estilo de cada diretor, a filmografia de atores prediletos, colecionar trilhas sonoras, ser fã número 1 do editor de som fulano, saber de trás para frente os filmes lançados na Eslovênia na década de 70; os fetiches cinematográficos se manifestam em pequenos graus de curiosidade até um estado de obsessão bem próximo da paranóia.

Uma vez conheci um cara que tinha transtorno obsessivo compulsivo e piscava desesperadamente a cada cinco segundos. Menos quando assistia à um clássico do cinema italiano - Rosselini, Pasolini, Antonioni e principalmente Fellini, tinham um poder curativo quase shamanístico sobre ele.
Com tantas manias na prateleira para escolher, confesso que no início de minha vida de cinéfilo foi inevitável não ceder a tentação de ler roteiros.

Começou lá pelos meus dezesseis anos, quando já lia alguma coisa em inglês sem maiores dificuldades, e despertei minha audição para a genialidade de alguns diálogos que adorava guardar e repetir.

O acesso aos roteiros não era uma das coisas mais fáceis de se ter em mãos naquela época, me lembro que a Internet discada era uma porcaria, o número de sites sobre cinema era bastante reduzido e achar roteiros na web era procurar agulhas em um palheiro.

Nos primeiros anos, me deliciava em repetir exaustivamente no vídeo cassete minhas cenas prediletas, enquanto anotava em um bloquinho os diálogos em inglês.

Foi assim com “Táxi Driver”, “Blade Runner”, “Cães de Aluguel”, “Duro de Matar” “Máquina Mortífera”, e tantos outros nomes que eram selecionados somente pelo critério de número de frases bacanas de serem lembradas, sem preconceito com qualquer filme, adorava alguns diálogos de “Viagem Insólita”,  “Os Goonies” e “Exterminador do Futuro 2”.

  Travis:
Loneliness has followed me all my life.  The life of loneliness pursues me wherever I go: in bars, cars, coffee shops, theaters,  stores, sidewalks.  There is no escape.  I am God's lonely man.

I am not a fool.  I will no longer fool myself.  I will no longer let myself fall apart, become a joke and object of ridicule.  I know  there is no longer any hope.  I cannot continue this hollow, empty fight.  I must sleep.  What hope is there for me?(Taxi Driver - by Paul Schrader)



Após um tempo esse hábito virou um hobby bastante prazeroso, com a melhora da Internet e do ambiente de rede já era possível encontrar um ou outro roteiro para ler.

Achei no sebo uma vez uma tradução do roteiro de “Laranja Mecânica” e até hoje dou risada quando lembro minha satisfação.

Organizei em meu computador pessoal mais de cinqüenta frases selecionadas -que dariam um bom livro cheguei a pensar.

Aí passei na faculdade de jornalismo. O tempo ficou escasso e um belo dia meu computador queimou colocando fim de forma irremediável ao meu arquivo pessoal.
Como um vício é recorrente, uma hora ou outra sempre acabo por ler um roteiro ao invés de ler um livro. Sugiro a experiência, é um pouco estranho no começo, mas depois se torna tão agradável quanto ler um bom romance.

Por isso deixo aqui dicas de roteiros infalíveis para a leitura de um iniciante.
Qualquer um dos roteiros de longas assinados por Quentin Tarantino são um deleite; as linhas narrativas e diálogos cheios de sacadas e humor negro são realmente demais.
A maioria dos filmes de David Mammet também oferecem roteiros muito interessantes, que nem sempre atingem na execução o potencial das linhas, as tramas apresentam bons momentos de suspense e reviravoltas.

Aconselho a maioria dos suspenses policiais e desaconselho comédias e filmes de terror, que perdem muito sem o poder das imagens.

Para encerrar, existem ainda roteiros irresistíveis pela sua construção, pela narração em off das personagens. Alguns de meus prediletos estão entre eles: “Clube da Luta”, “Táxi Driver” e “Croupier”.


Tyler tugs at Jack's arm.

TYLER
We are God's middle children, with no special place in history and no special attention. Unless we get God's attention, we have no hope of damnation or redemption.

Jack looks at Tyler and they lock eyes in a stare.

TYLER
The lower you fall, the higher you fly.  The farther you run, the more God wants you back.

Jack does his best to stifle his spasms and quivers of pain.  Tears drip from his eyes.

TYLER
Someday, you will die.  And until you know that, you're useless to me.

Tyler's eyes fill with tears and he smiles.  Suddenly, Jack starts breathing heavily and he shakes his hand....( Fight Club - Jim Uhls)

 O que motivou este artigo foi um pequeno trecho do roteiro do filme “Croupier”, talvez a mais desconhecida das indicações citadas. Surgiu como uma recaída nessa semana aonde os números me perseguiram em datas, códigos, senhas, horas, limites, me peguei repetindo de cor um trecho que não lia há anos:

 “ É tudo números pensou o croupier. O girar da roleta. A virada de uma carta. O tempo da sua vida. A data do seu nascimento. O ano de sua morte. No Livro dos Números, o Senhor disse – Contarei vossos passos”

Quem estava perto pensou que eu era louco. Com um pequeno sorriso voltei para a casa e reli o roteiro completo. Louco não, só mais um cinéfilo cheio de manias.

 

terça-feira, março 15, 2011

O Machismo Encantador de Mad Men



"Nostalgia - it's delicate, but potent. Teddy told me that in Greek, "nostalgia" literally means "the pain from an old wound." It's a twinge in your heart far more powerful than memory alone. This device isn't a spaceship, it's a time machine. It goes backwards, and forwards... it takes us to a place where we ache to go again. It's not called the wheel, it's called the carousel. It let's us travel the way a child travels - around and around, and back home again, to a place where we know are loved."

"Nostalgia - é delicada, mas potente. Teddy me disse que na Grécia, "nostalgia" literalmente quer dizer, "a dor de uma velha ferida". É uma agulhada em seu coração, de longe mais poderosa que a memória. Este dispositivo não é uma espaçonave, é uma máquina do tempo.. Ela vai para trás e para frente... nos leva para um lugar aonde gostaríamos de estar de novo. Não é chamado de "A Roda", é chamado de "O Carrossel". Ele nos permite viajar do jeito que as crianças viajam, girando e girando e voltando para a casa novamente, para o lugar onde nós sabemosq ue somos amados."

(Don Drapper, apresentando The Carrossel of Kodak, in the 1° Season Finale - episódio: The Wheel)

Aproveitando o resto que sobrava de minhas férias fui tomado por uma grande curiosidade quando vi a cerimônia do Globo de Ouro 2010 premiar pela terceira vez consecutiva “Mad Men” com o prêmio de melhor série dramática.

Em minha poltrona apostava as fichas para um triunfo triplo da quarta temporada de “Dexter”, que segundo meus palpites, levaria os prêmios de “Melhor Ator”, “Melhor Ator Coadjuvante” e “Melhor Série” na categoria Drama. Fiquei surpreso ao perceber que Michael C. Hall e John Lithgow confirmaram minhas expectativas, mas que a série produzida pelo canal HBO quebrou todos os prognósticos que havia lido e faturou seu terceiro prêmio consecutivo.

Sei que Nelson Rodrigues alertava com sua famosa frase sobre os consensos: “Toda unanimidade é burra”, mas decidi checar por conta própria se “Mad Men” merecia seus prêmios ou se era tudo um grande golpe publicitário.

Era tudo realmente um grande golpe publicitário. Literalmente, mas sem nenhum demérito. A série vale cada minuto, ao mostrar de forma charmosa e encantadora o dia-a-dia da agência de publicidades fictícia “Sterling Cooper” em um esfumaçado Estados Unidos da década de 60.

Com o nome retirado do apelido dado aos publicitários da Madison Avenue, Mad Men, traz para a televisão um requinte de produção soberbo cheio de minúcias e traços fiéis a uma época peculiar e nostálgica.

Impossível resistir aos charmosos ambientes decorados em tons pastéis e ao desfile de itens históricos que passam diante de nossos olhos com naturalidade - as máquinas de escrever, os primeiros logos de marcas mundialmente famosas, os ternos impecáveis de corte reto, os vestidos acinturados, os automóveis robustos e agigantados...

Ao mesmo tempo a cada episódio as “novidades” do mercado mundial aterrissam em tela  trazendo ainda mais nostalgia; o desodorante em spray , o carrossel Kodak de slides e o pequeno fusca alemão.
Sem perceber o espectador mergulha em uma aula de história que ressuscita não somente a estética de uma época, mas todo seus costumes. A antropologia vestida com glamour para um encontro à dois aonde sem dúvida, o homem dita as regras.

Fica nítido em cada um dos episódios o “machismo” de uma época aonde o feminismo não havia destruído a feminilidade.

A mulher recupera em “Mad Men” um status diferenciado sendo tratada sob um rígido protocolo que vai além de apenas retirar o chapéu na presença de uma dama. Esse esmero de cuidados, muitas vezes confundido com um cerceamento da liberdade individual, demonstra que a mulher na realidade ocupa um papel central na trama.

Enquanto certamente algumas feministas radicais irão demonizar a série, a maioria dos homens e mulheres sentirão uma ponta de curiosidade sobre como seria viver em um momento histórico tão peculiar.

Regendo a orquestra afinada de “Mad Men” está Don Draper, o chefe de criação da Sterling-Cooper em uma interpretação impecável do ator John Hamm.
Draper é a caracterização perfeita dos maiores protagonistas dos romances americanos do início do século passado. Com seu rosto quadrado quase sem ângulos, de características marcantes, lembra tanto os detetives de romances noir quanto os canalhas espreitando nas mesas de bar.
Sua história de passado obscuro sob seu momento brilhante de gênio criativo em ascensão é o que dá fôlego à série e permite que sua personalidade roube a cena.

Como pano de fundo a sociedade norte americana da década de 60 é mostrada por um jogo de contrastes interessante. Peggy Olsen, a mocinha ingênua que tenta a sorte na cidade grande, é o contrário de Joan Hollooway, a secretária sexy, inteligente e decidida. O arrogante e ambicioso executivo junior Peter Campbel é o contrário do comedido e experiente Bertran Cooper, sócio majoritário da Sterling Cooper. A esposa devotada de Draper, interpretada pela bela January Jones é a rainha do lar, tratada com esmeros e regalos, aonde até o amor só é feito com luzes apagadas; o contrário da ilustradora vivida por Rosemarie DeWitti, amante, representante de diversas vertentes marginalizadas da época, ela simboliza as gerações hippie e beat e traz às telas o consumo de drogas “recreativas” que cresciam naquele instante.

O homossexualismo também é retratado de forma sutil através da personagem Salvatore Romano, um desenhista de origem ítalo-americana que faz parte da equipe de criação de Draper.
O anti-semitismo, a crise do tabaco, as eleições de Kenedy vs. Nixon, o fundo histórico parece trazer temas interessantes inesgotáveis para os episódios.

Completa e inteligente, “Mad Men” confirmou todas minhas expectativas positivas. Sem a necessidade de grandes arroubos emocionais de aviões caindo em ilhas fantasmagóricas ou super-agentes desvendando crimes capazes de comprometer a segurança nacional a série parece ter atingido outro patamar. Um patamar de elegância, estilo e sofisticação que só existia na década de 60.
Azar de quem achar machista, eu achei fantástico.



segunda-feira, março 14, 2011

Dexter e o Homem de Kipling





If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings --nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And --which is more-- you'll be a Man, my son!
Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!


Quando o escritor britânico Rudyard Kipling encerrou seu mais conhecido poema utilizando a palavra “Man”, grafada com a letra maiúscula, ele criava um conceito de homem ideal muito distante da realidade.

Nas breves linhas de “If” (Se) o que vemos é a construção de um autômato social perfeito - adequado e de arestas aparadas para o convívio pacífico em qualquer ambiente. O poema adotado por muitos como mote pela sua exuberância técnica e conteúdo utópico sem dúvida fica muito bonito em molduras douradas nas paredes de grandes conglomerados executivos. Médicos, administradores, publicitários, empresários, artistas e qualquer homem considerado “de sucesso” adora o regalo de poder citar um ou dois versos de Kipling para se sentir mais humano e bondoso, mais cordial e menos torpe. 

O sucesso da série de televisão Dexter, exibida pelo canal Showtime desde 2006, segue por definição o caminho inverso do proposto pelo homem de Kipling.
Baseada no livro “Dark Dreaming Dexter”, de Jeff Lindsay, a série escolhe como protagonista um pouco ortodoxo serial killer.

Depois da cortina de fumaça e do alarde social criado pelo argumento ousado, o que restou após o fim da “choradeira” ética e moral, que condenava a humanização de um assassino, foi uma aprovação pública inesperada que aumenta o índice de audiência a cada nova temporada da série.
Dexter Morgan tem o formato perfeito do “Homem de Kipling”. Tem um bom emprego, uma vida social aparentemente estável e feliz, um comportamento amigável, gentil e generoso.
No entanto, a máscara de Dexter cai logo nos primeiros minutos de seu episódio piloto. O expectador é convidado a conhecer os pensamentos que permeiam a mente do personagem, enquanto este finge emoções e controla cada reação para esconder da sociedade a realidade sobre seu hobby predileto: matar pessoas.

Em nenhum momento o argumento da série faz concessões a crueza da situação proposta. O interlocutor é convidado a conhecer à fundo as motivações e os pensamentos de um assassino em série, por isso não espere sutilezas. Dexter é cruel, sádico e sanguinário.
Inteligente, se beneficia de seu status privilegiado dentro da polícia, aonde tem livre acesso por ser um perito forense especializado em sangue, levando vantagem na hora de selecionar suas vitimas e esconder seus crimes.

Por ser extremamente humano e possivelmente mais crível que a maioria das personagens criadas para o entretenimento Dexter assassinou o “homem de kipling” e mais do que isso, foi inocentado pelo júri popular.

Todos nós possuímos defeitos, falhas e atitudes condenáveis socialmente que escondemos do mais intimo de nossos amigos. Ficamos felizes com o fracasso alheio, odiamos mais do que amamos, adoramos criar intrigas, separar pessoas, incentivar tumultos, vaiar. Provavelmente sentimos mais prazer em quebrar os dez mandamentos e sucumbir aos sete pecados capitais do que fazer uma boa ação. 

Por isso nos sentimos confortados em perceber que apesar de possuirmos comportamentos tão cruéis e torpes ainda não assassinamos ninguém. 

O deleite instigado pela série é justamente o oposto daquele causado pelo poema de Kipling.
Se podes perder a cabeça enquanto todos fingem que estão bem, se podes tripudiar na derrota alheia, lesar e causar dano a quem te calunia e ainda assim sentirdes humano.
Se aceitas com naturalidade ser intolerante, incompreensivo e orgulhoso, superior aos menores que tu na hierarquia social e não sentes remorso com esta situação.

Se vivendo te permites perder as esperanças, ser cético e incrédulo na bondade individual ou coletiva enquanto tantos fingem acreditar.

Se te levantas a cada queda a ti imposta motivado apenas pelos sentimentos de revanche e vingança.
Se buscas enforcar o rei e explorar a plebe.

Neste dia alegra-te meu filho: Serás Homem.

Não parece tão plausível como o “Se” original ?

Sob esse pretexto Dexter iniciou neste mês sua quarta temporada e a cada ano se torna mais convincente. A tendência na série em “humanizar” a personagem central segue ainda com moderação, sem radicalismos, para não virar “mais uma” ficção. 

Os índices de audiência continuam derrubando a hipocrisia de quem recita Kipling mas assiste com um largo sorriso cada punhalada de Dexter.

O autômato de “If” segue ótimo na teoria, vigoroso e altivo como de costume, uma ótima meta que todos de certa forma objetivamos para o dia de amanhã. Por hoje somos humanos e adoramos uma boa série de televisão.


domingo, março 13, 2011

Aprendendo Política com Patativa do Assaré

"Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim"
(Millôr Fernandes)

"Repare que a minha vida
É deferente da sua. A sua rima pulida
Nasceu no salão da rua.
Já eu sou bem deferente,
Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte das obra da criação. 
Seu verso é uma mistura,
É um tá sarapaté,
Que quem tem pôca leitura
Lê, mais não sabe o que é.
Tem tanta coisa incantada,
Tanta deusa, tanta fada,
Tanto mistéro e condão
E ôtros negoço impossive.
Eu canto as coisa visive
Do meu querido sertão.


(Cante Lá que eu Canto Cá - Patativa do Assaré)


A todos nós eleitores que a cada pleito provamos na urna o efeito, muitas vezes catastrófico, do modelo democrático fica aqui uma lição do finado Sr. Patativa do Assaré.

Antes de começar vejamos nossa situação atual. Após ciclos infindáveis que renovam o poder público e nacional com eleições de dois em dois anos, o povo não se cansa de reclamar e abrir o chororô em todas as escalas, sejam elas federais, estaduais ou municipais. 

Ninguém explica como a tartaruga subiu no poste. Todos olham para ela indignados e exclamam: “Desce daí sua sem-vergonha!” 

Mas ninguém busca a escada para tirá-la de lá. Ninguém se organiza para um ato concreto - que seja derrubar o poste.

E assim se renova o ciclo quase que perene de eleger e reclamar até as próximas eleições.
Para quem não sabe, Antonio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, além de poeta, compositor, músico popular e improvisador, tomou para si uma das tarefas mais árduas que se pode conceber em solo tupiniquim: a de esclarecer o povo.

Nascido em Assaré no Ceará, Patativa padeceu da sina comum de tantos severinos de sobreviver da agricultura e ser explorado pelo coronelismo. Ficou cego de uma das vistas muito cedo o que parece ter lhe garantido um dom de ciência e de compreensão, quase uma clarividência, capaz de enxergar muito além da aridez do nordeste, criando versos e histórias e transmitindo através da oralidade lições de democracia, sociedade e convivência humana.

Para quem torce o nariz e trata com preconceito os versos de Antônio, vale saber que ninguém no meio acadêmico conseguiu até hoje dissecar de forma completa a vida e a obra deste poeta reconhecidamente talentoso. A oralidade,marca maior de seu estilo, não compromete a distribuição das rimas organizadas de forma intuitiva em moldes camonianos, muitas vezes em sonetos de rimas clássicas, outras em décimas e sextilhas nordestinas.

O poder imagético de sua prosa e verso é tão fabuloso quanto didático.

Imaginem a cena. Um boi zebu todo suado querendo fugir do sol se esconde à sombra de m grande juazeiro. Sem perceber, ao parar, coloca as quatro patas em cima de um formigueiro.

As formigas, indignadas com o disparate, ordenadamente começaram a revolução. Uma a uma escalando, picando e atacando foram contra o boi zebu, que relutou em sair da sombra que tanto lhe protegia. Ao ver que não podia vencer as formigas, porque eram numerosas demais, abandonou a sombra do juazeiro derrotado.

Moral da história ? Vamos Minhas Camaradas Esse Boi Zebu é só um !

Contra  “boi-zebu-senador”,  “boi-zebu-prefeito” ou “boi-zebu-deputado”, mamando e descansando na sombra do imenso juazeiro que pode ser nosso país, estado ou município a lição é uma só.
Lição de democracia pela base. Muitos escolhem um, porque muitos são mais do que um. O poder está com a massa e não com a minoria, basta mobilizar e corrigir.

O grito da ave Patativa ecoava no mais árduo terreno político do país. O nordeste . E lá sem se intimidar as poesias e rimas viraram livros, cordéis, canções e atingiram o povo sofrido que aprendia um pouco, ao repetir sem saber ler, as rimas de “O Boi Zebu e as Formigas”, “Eu quero”, “O Operário e o Agregado”, “A Terra é Natura”, “Nordestino Sim, Nordestinado Não” e tantas outras.
Por isso a poesia de Patativa avançava em várias frentes.

Ensinava o povo a votar:
“Quero um chefe brasileiro /Fiel, firme e justiceiro /Capaz de nos proteger, /Que do campo até a rua /O povo todo possua /O direito de viver.”

A ser patriota:
“Eu quero o agregado isento/ Do terrível sofrimento/ Do maldito cativeiro,/ Quero ver o meu pais /Rico, ditoso e feliz / Livre do jugo estrangeiro.”

A separar religião de política:
“Não é Deus que nos castiga,/ Nem é a seca que obriga / Sofrermos dura sentença,/ Não somos nordestinados, / Nós somos injustiçados / Tratados com indiferença...
...Mas não é o Pai Celeste/ Que faz sair do Nordeste/ Legiões de retirantes, / Os grandes martírios seus / Não é permissão de Deus,/ É culpa dos governantes.”

E em último caso a se rebelar e exigir justiça contra o governante corrupto eleito.
“Com a feição de guerrêra /Uma formiga animada / Gritou para as companhêra:/ Vamo minhas camarada /Acaba com os capricho /Deste ignorante bicho/ Com a nossa força comum /Defendendo o formiguêro/ Nos somos muitos miêro /E este zebu é só um.”

Então formigaiada antes de reclamar da rotatória municipal, do presidente do senado, do deputado corrupto o ideal é todos nós lermos e ouvirmos um pouco do chiar de Patativa, e assim quem sabe, mobilizar e resolver alguma coisa. Seja nas próximas eleições ou ainda neste mandato não podemos esquecer:
“- Este Zebu é só um”




 
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